
17/02/2022
O aquecimento global e os compromissos mundiais com a redução de emissão de gases de efeito estufa criaram a necessidade dos grandes eventos adotarem agendas responsáveis com o planeta. Até os Jogos Olímpicos de Inverno, que se encerram no domingo, em Pequim, na China, um dos países mais poluentes do mundo, se vendem como a Olimpíada "verdadeiramente neutra em carbono", segundo definiu o Comitê Organizador. No Brasil, o Rio Open, o maior torneio de tênis da América Latina e que está sendo disputado no Jockey Club até domingo, é o único evento ATP 500 com o selo verde oferecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). E agora, para a edição de 2022, o evento ampliará seu engajamento.
Além de ações sustentáveis e compensação de toda a sua operação, incluindo o deslocamento dos jogadores e equipes, tanto localmente quanto em viagens aéreas, o Rio Open tem como meta neutralizar as emissões de CO2 derivadas do deslocamento do público (transporte aéreo e terrestre).
Para isso, pediu que todos os que compraram ingressos preencham formulário no site para que seja possível calcular a quantidade de carbono que cada um emitirá ao se dirigir ao Jockey. Mas, segundo a organização, o engajamento do público ainda é tímido.
– Nossa expectativa é uma adesão maior durante esta semana, em que reforçaremos essa comunicação no próprio evento – espera Marcia Casz, diretora geral do Rio Open, que lembra que tanto este torneio quanto Pequim-2022 são signatários do termo de compromisso "Esporte pela Ação Climática" da ONU. – Realizar um evento com metas de neutralização requer o compromisso de incorporar essas diretrizes durante todo o planejamento. O mais desafiante, no momento, é o engajamento do público tanto em relação aos resíduos quanto na descarbonização. Entendemos que é necessário respeitar as curvas de aprendizado do público.
Marcia explica que em 2020, o Rio Open compensou 402 toneladas de carbono, através da compra de créditos provenientes da geração de energia renovável da Usina Hidrelétrica de Jirau, em parceria com a Engie, maior empresa privada de energia do Brasil – esta edição deve chegar a 700 toneladas, segundo estimativa.
A neutralização das emissões foi feita no Registro Público de Emissões, que é uma plataforma desenvolvida pelo Programa Brasileiro GHG Protocol que auxilia na publicação dos inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE).
– Os cálculos e suas comprovações foram auditados e então registrados formalmente no Registro Público de Emissões – garantiu Márcia.
Este processo começa com um inventário. Empresas especializadas fazem o cálculo das emissões e, no caso do torneio de tênis, foi utilizada a metodologia do GHG (Green House Gases).
O levantamento englobou emissões de todas as etapas incluindo a combustão dos geradores, eletricidade para a iluminação das pistas, emissões do transporte aéreo e terrestre dos atletas, da equipe técnica e da produção, todo o resíduo gerado pelo evento incluindo dos fornecedores, entre outras iniciativas.
Depois do inventário, seleciona-se como compensar as emissões. Compra de créditos de carbono e o plantio de árvores são os mais comuns.
– Plantar árvores é uma atividade interessante porque além de sequestrar carbono da atmosfera, gera outros benefícios. Existem empresas que fazem as compensações, por exemplo, trabalhando com agricultores familiares e com a comunidade local, gerando incluive benefícios socias e de renda para esta população – explica o engenheiro florestal Mariano Cenamo, diretor de Novos Negócios na Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).Ele lembra, porém, que não basta plantar as árvores. É necessário acompanhar o crescimento. Isso porque, às vezes, há perdas de mudas. E citou a Floresta dos Atletas, prometida pela Rio-2016 e que só saiu do papel em dezembro de 2019. As mudas ficaram guardadas em um sítio, cujo responsável fez diversos apelos para que não as perdesse.
– É preciso cuidar da árvore, monitorar. E quem financia este tipo de ação tem de cobrar. Empresas sérias que fazem projetos de compensação têm relatórios de monitoramento. É preciso transparência – ressalta Cenamo, que chama a atenção para a compra de créditos que geram pouco benefício ao clima. – Eventos no Brasil poderiam atacar os recordistas em emissões. Cerca de 70% das emissões de carbono vem do desmatamento e da agropecuária.
Para Elisângela Almeida, superintendente de Meio Ambiente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) é importante valorizar toda iniciativa, exceto, claro, a chamada greenwashing, a "lavagem verde", quando há divulgação de informações equivocadas em defesa do meio ambiente. Afirma que o ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), "vem forte" desde 2020 e se tornou "quase uma obrigação imposta pela sociedade". E dentro deste conceito, é mais "facilmente aceita" a agenda ambiental.
Ela afirma que ainda é difícil atuar em diversas frentes de compensação e que, no caso de eventos esportivos, a compra de créditos "é o que dá para fazer".
– É difícil para o evento criar uma pauta com o setor agropecuário, por exemplo. As possibilidades à mão são essas: o mercado voluntário de venda de crédito ou o que é oferecido pelo governo (projetos). A cadeia é falha já no início do processo – opinou a doutora em Ecologia pela UERJ, que diz que a fiscalização dos projetos também podem apresentar gargalo. – É preciso fazer escolhas e crédito certificado não é uma escolha ruim. A pauta pode ser apenas a compensação de carbono.
Eventos mundiais como a Copa do Mundo de futebol e os Jogos Olímpicos precisam de iniciativas amplas para compensar milhões em emissão de GEE. E quando o assunto é a neutralização do carbono, o maior vilão são os deslocamentos aéreos.
Ao menos a pandemia e as restrições impostas pela Covid-19 "ajudaram" o Comitê Organizador Pequim-2022. Isso porque as viagens de avião foram reduzidas, uma vez que não há público estrangeiro nos Jogos. Também foram canceladas as vendas de ingressos locais. Com isso, foram economizadas mais de 500 mil toneladas de CO2 (nos setores de viagens e hospedagem).
Para diminuição das emissões, foram reaproveitadas sedes dos Jogos de Verão de 2008, além do fornecimento de eletricidade totalmente renovável para todos os 25 locais. A China vem investindo pesadamente em energia renovável como parte de seu objetivo geral de alcançar a neutralidade de carbono até 2060.
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Fonte: O Globo
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