
08/02/2022
O principal evento esportivo de inverno do mundo realizará sua 24ª edição praticamente sem neve - a natural, pelo menos.
Mais de 222 milhões de litros de água serão usados para criar neve artificial para os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim.
Serão os primeiros a contar quase 100% com neve produzida por máquinas, mas não chegam a ser um ponto fora da curva.
Um relatório divulgado pelo Sport Ecology Group, que reúne cientistas de todo o mundo em prol da sustentabilidade do esporte, destacou que as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global ameaçam o futuro dos esportes de neve e reduzem o número de locais adequados para futuras Olimpíadas de Inverno.
O trabalho, realizado por pesquisadores ligados à Universidade de Loughborough, no Reino Unido, e à organização Save Our Winters, apontou que, dos 20 locais que já sediaram os jogos desde 1924, apenas 10 teriam a "adequação climática" e os níveis naturais de neve necessários para sediar um evento em 2050.
Maddy Orr, uma das líderes do estudo, intitulado Slippery Slopes, pontuou que Pequim não é a única cidade que enfrenta problemas devido à falta de neve. "Esse é um problema recorrente em áreas montanhosas ao redor do mundo."
Nas Olimpíadas de Inverno de Sochi, na Rússia, em 2014, o equivalente a mais de mil campos de futebol foram cobertos com neve artificial.
"Nosso objetivo não era apontar o dedo para Pequim, mas queríamos ilustrar os desafios enfrentados pelo avanço dos esportes de neve e quem sabe iniciar uma conversa sobre como os eventos esportivos podem se adaptar a um clima em mudança", acrescentou a pesquisadora.
Pequim disputava com a cidade cazaque de Almaty a vaga para sede dos jogos de 2022.
O Comitê Olímpico Internacional chegou a alertar em um documento de avaliação da candidatura chinesa que as instalações do distrito de Yanqing e da cidade de Zhangjiakou tinham "nível de precipitação de neve anual mínima e dependeriam inteiramente de neve artificial".
Ao final, Pequim foi vista como uma aposta segura por ter sediado as Olimpíadas de 2008.
A capital da China é uma das cidades com maior escassez de água no mundo.
Fazer neve artificial, por sua vez, é um processo que demanda muita água e energia - um obstáculo para o compromisso do país de sediar jogos "verdes" com 100% de energia renovável.
Esse não é, entretanto, o único ponto controverso da neve artificial.
O produto geralmente leva aditivos químicos ou biológicos para melhorar sua qualidade e rendimento, retardando seu derretimento, por exemplo. Assim, a água tratada quimicamente pode causar danos à biodiversidade e à vegetação. O derretimento lento, por sua vez, pode prejudicar o ciclo de crescimento das plantas.
Peter Speight, campeão britânico de freestyle e atleta olímpico de inverno, acredita que a neve artificial não deve ser vista como uma solução para combater as mudanças climáticas.
"É útil para criar neve física para as pessoas usarem", disse ele. "Mas usa enormes quantidades de água e energia e não ajuda a resolver as mudanças climáticas."
"Precisamos resolver as mudanças climáticas em vez de depender de soluções focadas na mitigação."
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