
17/10/2019
Novas manchas não foram registradas ontem no litoral do Nordeste, segundo a Marinha, mas o estrago já está feito em manguezais e recifes de corais atingidos, regiões ecologicamente sensíveis e essenciais à economia da pesca e do turismo da região — estima-se que 70% do que se pesca no mundo tenha origem em manguezais. Uma vez sujos, mangues e corais são virtualmente impossíveis de limpar e levam anos para se recuperar, destacam especialistas. Nem a Marinha nem governos estaduais e especialistas sabem se, quando e onde novas manchas chegarão.
Os danos, porém, poderiam ter sido reduzidos, se um alerta tivesse sido dado e amplamente divulgado no início de setembro, salientam especialistas em gerenciamento costeiro, como Miguel Accioly, da Universidade Federal da Bahia, que acompanha o desastre.
Por sua extensão (cerca de 2.200 quilômetros de faixa costeira), o derrame deveria ser classificado na categoria 3, de nível máximo, do protocolo de emergências com óleo da Organização Marítima Internacional, diz o oceanógrafo Jackson Krauspenhar, especialista em emergências por óleo da empresa Sprink, que trabalhou no desastre da Baía de Guanabara, o maior em volume no Brasil, em 2000.
— Se tivéssemos um plano de contingência implantado e encarado a situação como uma emergência nacional, estaríamos mais preparados para alocar recursos, recrutar pessoal e instruir voluntários, por exemplo. Temos visto pessoas limpando as praias a serviço de prefeituras, sem orientação alguma. Além disso, o país está mal informado sobre o que acontece — frisa Krauspenhar.
Ele se refere, por exemplo, a pessoas contratadas para limpar a areia sem roupa adequada à proteção — o contato com o óleo pode causar reações — e que colocam o óleo em sacos de lixo comum. Sob sol quente, o óleo faz os sacos derreterem e suja de novo a areia. Além disso, lembra Accioly, se forem fechados, os sacos podem explodir porque o o óleo libera gases inflamáveis. Outra preocupação é para onde levar um material contaminante.
— Um alarme nacional deveria ter sido dado e não entendo por que não o foi. Investigar a causa é preciso, mas conter os danos é essencial. Prevenir custa mais do que remediar e agora a conta será cara. Há dez anos, pescadores foram treinados para emergências com óleo e as comunidades que vivem junto a empreendimentos de petróleo também recebem treinamento regular. Esse pessoal poderia ter sido chamado. Só a Bahia até agora tem um comitê de crise, não há nada em âmbito federal e os estados têm poder limitado — lamenta Accioly.
Por conta cara entenda-se, por exemplo, a compra de barreiras melhores do que as usadas até agora e que se adequam a impedir danos no abastecimento de navios. Estas custam cerca de R$ 6 mil por dia em cada ponto. Mas existem outras que chegam ao fundo de rios, deixam o óleo passar, mas desviam seu curso. Elas custam cerca de R$ 70 mil por ponto/dia.
— Não é o ideal, mas é o que se pode fazer agora. Elas desviam o óleo dos estuários com manguezais para as praias. A areia pode ser limpa, o mangue, na prática, não. E do mangue vem quase todo o pescado produzido pelo Nordeste. Se tirou cerca de 800 quilos do Rio Pojuca, mais isso é muito pouco, o óleo penetra no sedimento e fica lá liberando substância tóxicas. Nem sabemos ainda o que entrou realmente lá — explica ele.
Leia a matéria em O Globo
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