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Produtor cultural cria roupas para bonecas utilizando apenas material reciclado

10/10/2019

Apaixonado por moda desde a infância, Erick Ferraz, de 44 anos, acabou seguindo a profissão de produtor cultural na vida adulta, sem deixar de lado a antiga paixão, agora transformada em hobby. Com direito a passarela com tapete vermelho e tudo. Mas as “modelos” não são de carne e osso e sim de plástico. Suas criações, exibidas num desfile virtual na internet e até o fim de novembro numa exposição física na Gávea, são vestidas por bonecas que seriam descartadas e, por obra de sua criatividade, vão literalmente do lixo ao luxo.
Mas, no lugar do tecido, ele recorre a material reciclável. As roupas de festas são feitas com papel de presente, embalagens de bombom e de café, garrafas pet, caixa de leite, sacos plásticos e tudo mais que cai nas mãos do “estilista das Barbies” e que não teria outro fim que não o lixo para as outras pessoas. Tampas de garrafas de amaciantes, por exemplos, viram estilosos que enfeitam as cabecinhas de algumas bonecas.
— Não segui profissionalmente essa carreira, mas sempre gostei de moda. Desde a infância já tinha essa visão de que o material reciclado poderia virar look, figurino e decidi fazer algo tendo como foco o reaproveitamento, principalmente após o incentivo de amigos que sugeriram a criação de uma página na internet — afirma o morador do Vidigal.
E foi assim que há cerca de cinco anos nasceu no instagram a Red Carpet Recycling (reciclando no tapete vermelho, numa tradução quase literal), com cerca de 3,6 mil seguidores. Na página, as bonecas são mostradas como verdadeiras “modelos” de um grande desfile de moda, com direito a tapete vermelho. Na legenda das fotos, a frase “Gisele Bündchen veste Givenchy ou Dior”, por exemplo, ouvida comumente nas passarelas de verdade é substituída por “ Lisie veste embalagem de café” , “Fabiana veste embalagem de trufa e sacola de plástico”, "Yasmin veste embalagem de bala de coco" ou “Monique veste sacola de plástico”.
Os nomes são escolhidos em homenagem a amigas, doadores e suas filhas. É que desde que resolveu levar o hobby a sério, criou-se em torno de Erick uma verdadeira rede de doações, inclusive do material utilizado nas suas criações. As bonecas que chegam até ele passam por um processo de recuperação antes de vestirem os modelitos de luxo. Ele só aceita as usadas e não rejeita nem mesmo as defeituosas. Entre suas “modelos” existem algumas faltando partes do corpo, como braços pernas. Porém, em tempos do politicamente correto, é através delas que o “estilista” das bonecas aproveita para mandar o seu recado para a sociedade:
— Além da sustentabilidade e do incentivo ao reaproveitamento e ao consumo responsável procuro focar também na inclusão e na acessibilidade. Não descarto uma boneca porque está faltando um parte do corpo como um braço ou uma perna para mostrar que uma mulher deficiente também pode ser glamourosa. Faço questão de incluir também bonecas que representem os diversos grupos étnicos — explica.
Atualmente a página de Erick na internet exibe mais de 200 modelos diferentes de roupas, cada um deles com centenas de curtidas. O hobby do produtor cultural que trabalha com teatro fez tanto sucesso nas redes sociais que já gerou duas exposições no Galpão das Artes Urbanas Helio G. Pellegrino, da Comlurb, na Gávea, na Zona Sul do Rio. A primeira foi em 2017. Fez tanto sucesso que surgiu o convite para uma segunda mostra, esta inaugurada na semana passada e que ficará em cartaz até o fim de novembro. Nela está apenas de uma pequena mostra de tudo que é exibido no instagram (@redcarpetrecycling). São nove bonecas, cada uma vestindo um modelito diferente, numa passarela decorada com luminárias feitas de garrafas pet e móveis cenográficos do mesmo material.
Como não sabe desenhar, Erick modela as roupas no próprio corpo das bonecas. O sucesso do desfile de modas virtual — agora também na sua versão física — é tão grande que já está gerando propostas de trabalho para o seu criador, que não descarta a possibilidade de, num futuro próximo, transformar o hobby em ganha-pão.

Fonte: O Globo

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