
24/09/2019
Tão logo souberam que a indígena Ysani Kalapalo, da região do Xingu, foi escolhida pelo presidente Jair Bolsonaro para ocupar uma das cadeiras da bancada do Brasil no momento em que ele for discursar na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (24) em Nova York, lideranças indígenas do próprio território xinguano protestaram com veemência.
Ysani tem apoiado, nas redes sociais, as posições ambientalistas de Bolsonaro desde a campanha, inclusive quando ele afirmou que o fogo na Amazônia pode ter sido provocado por ONGs. Ysani, desta forma, afastou-se de seu povo, que não se sente representado por ela.
A carta de repúdio foi endossada pelos povos indígenas Mebêngôkre/Kayapó, pelo Instituto Raoni e outras tantas instituições que representam algumas etnias brasileiras. Diz um trecho da carta, que circulou nas redes sociais neste fim de semana que passou:
“Como representantes dos 16 povos indígenas do Território Indígena do Xingu (Aweti,Matipu, Mehinako, Kamaiurá, Kuikuro, Kisedje, Ikpeng, Yudjá, Kawaiweté, Kalapalo, Narovuto,Povo Waurá, Yawalapiti, Trumai, Nafukuá e Tapayuna), chegamos à sociedade brasileira para repudiar a intenção do governo brasileiro de incluir a mulher indígena Ysani Kalapalo na delegação oficial brasileira para participar da Conferência Geral das Nações Unidas, Assembleia a ser realizada na cidade de Nova York em 24 de setembro de 2019.
Mais uma vez, o governo brasileiro demonstra desrespeito ao renomado Xingu, povos e líderes indígenas e outros líderes indígenas nacionais, desrespeitando a autonomia, organizações de povos indígenas a tomar decisões e nomear seus representantes em eventos nacionais e internacionais. O governo brasileiro ofende os líderes indígenas do Xingu e do Brasil, destacando uma indígena que trabalha constantemente em redes sociais com o único objetivo de ofender e desmoralizar os líderes e movimentos indígenas do Brasil”.
Não seria muito difícil para o presidente fazer outra escolha, menos polêmica. E nem precisaria pagar passagem. Lá mesmo, em Nova York, está uma delegação da Associação Indígena Kisêdjê para receber o Prêmio Equatorial 2019, dado pela própria ONU pela excelência de um trabalho de produção de óleo de pequi na Terra Indígena Wawi.
O mais interessante é que os Kisêdjê iniciaram a produção depois de retomarem as terras que tinham sido invadidas por fazendeiros e que já estavam degradadas. Só no ano passado produziram 315 litros do óleo, e já estão pensando em exportar.
A lógica defendida pelo presidente Bolsonaro, de que os indígenas precisam ter o direito de explorar suas terras, incluindo as reservas legais, se afasta do modelo de produção que esses povos preferem adotar. Bolsonaro quer que grandes empresas tomem à frente do trabalho e distribuam o lucro entre os indígenas.
Mas a maioria dos povos tradicionais quer continuar tendo autonomia sobre tais atividades, como sempre tiveram. O caso do pequi dos Kisêdjê é apenas um entre muitos que são bem sucedidos, com técnicas agrícolas menos invasivas, que respeitam o solo, a água.
O editorial pode ser lido no G1
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