
19/09/2019
Um relatório de 169 páginas elaborado pela ONG de direitos humanos Human Rights Watch denuncia um cenário de violência praticada por madeireiros na Amazônia e de impunidade, que seria incentivada por um governo "hostil" com quem tenta proteger a floresta.
Para o documento "Máfias do Ipê: Como a violência e a impunidade impulsionam o desmatamento na Amazônia brasileira", a organização entrevistou mais de 170 pessoas, incluindo 60 membros de povos indígenas, moradores dos estados do Maranhão, Pará e Rondônia e dezenas de servidores públicos em Brasília e na região amazônica.
— Os problemas que esse documento mostra não são novos, a maioria dos casos de violência é de antes deste ano. O que é novo é que, pela primeira vez, o governo e seu presidente são abertamente hostis a quem tenta preservar a floresta. Ele manda uma mensagem que encoraja essas pessoas de uma forma muito perigosa — afirma o diretor de direitos humanos e meio ambiente da Human Rights Watch, Daniel Wilkinson.
A Human Rights Watch documentou 28 assassinatos, a maioria a partir de 2015 — além de 4 tentativas de assassinato e mais de 40 casos de ameaças de morte — nos quais havia evidências críveis de que os responsáveis por esses crimes estavam envolvidos no desmatamento ilegal e viam suas vítimas como obstáculos às suas atividades criminosas.
Algumas vítimas eram agentes públicos, mas a maioria era de indígenas ou outros moradores que denunciaram a exploração ilegal de madeira às autoridades.
De acordo com a ONG, destas 28 mortes, apenas duas foram julgadas. A impunidade é marca de outro levantamento citado: dos mais de 300 assassinatos que a Comissão Pastoral da Terra registrou desde 2009 na Amazônia, apenas 14 foram levados a julgamento.
— Os casos não são solucionados. Os promotores colocam a culpa na polícia. A polícia coloca a culpa na distância. A distância pode realmente complicar, mas não torna impossível: alguns casos aconteciam em cidades, nada distantes de delegais policiais. De qualquer forma, raramente são feitas investigações sérias e prisões — afirma Wilkinson.
A HRW entrevistou policiais envolvidos nas investigações de seis assassinatos e identificou falhas graves na condução dos casos: em pelo menos dois, os investigadores não visitaram a cena do crime, e em cinco não houve autópsia.
Ainda de acordo com o relatório, as ameaças não são levadas a sério ainda que sejam um indicativo concreto de que algo pior pode acontecer.
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