
29/08/2019
Pressionados pela pecuária, moradores da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, em Xapuri, no Acre, estão abandonando a cultura da castanha e da borracha para adotar as criações de gado como fonte de renda. A mudança não chega sem efeitos colaterais. Para acomodar o gado, os moradores precisam “limpar” a área de floresta.
E, para isso, muitos estão usando o fogo. O resultado é que, neste ano, a Resex Chico Mendes está liderando o ranking de focos de incêndio entre as unidades de conservação do Acre.
Criada em 1990, a reserva que homenageia o líder seringueiro morto a mando de fazendeiros em 1988 tem cerca de 1,9 mil famílias morando em 975 mil km². Inicialmente, a ideia era que a área se transformasse em um modelo de desenvolvimento da chamada “economia verde”, com foco na produção da borracha extraída das seringueiras, da coleta de castanha-do-pará e de outros produtos da floresta.
Nos últimos anos, no entanto, a pecuária seduziu muitos moradores. Segundo o plano de manejo do local, a criação de gado é permitida desde que não ultrapasse 5% do total da área destinada a cada família. Mas, para acomodar o gado, é preciso abrir pasto em meio à floresta, e o fogo é usado nesse serviço.
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram 163 focos de incêndio registrados na reserva neste ano, até anteontem. No Acre todo, cresceu em 134% o número de queimadas em relação a 2018.
Viajando pelo interior da Resex, é possível ver diversas criações de gado às margens de um dos estreitos ramais que cortam a área. A estrada é de barro. Na chuva, a lama toma conta. Na seca, a poeira impera. Além do pasto, também são vistas áreas de mata derrubada e grandes áreas descampadas já atingidas pelo fogo.
— Essa área aqui, no ano que vem, tem grande chance de virar pasto — diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Francisco Assis, apontando para uma área queimada.
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