
06/08/2019
O açaí é amplamente consumido no Brasil. O país produziu mais de 1,3 milhão de toneladas em 2017, segundo dados do IBGE. Sua semente equivale a 85% da fruta e gera um resíduo que causa um grande problema ambiental para a região Norte, responsável pelo fornecimento de 98% do açaí nacional. Uma pequena parte é aproveitada na confecção de artesanato por produtores locais e outra parcela é comprada a baixo custo por indústrias de cimento para queima nas caldeiras.
Na região metropolitana de Belém, é possível encontrar sacas despejadas nas calçadas, nas encostas de rios e canais. O descarte indevido eleva o risco de entupimento de bueiros, enchentes e alagamentos. No período de safra, cerca de 120 toneladas de caroços são produzidos por dia. O volume representa 50% dos resíduos sólidos produzidos na capital paraense, de acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia.
O que pouca gente sabe é que o “caroço”, que tem o tamanho aproximado de um amendoim, possui um alto teor de manana, uma substância valiosa com propriedades antioxidantes que atuam no combate ao envelhecimento e na prevenção de doenças. Intrigada com o destino pouco nobre desse material valioso e pouco explorado, a pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia, Ayla Sant’Ana da Silva, decidiu estudar as propriedades moleculares da semente do açaí.
— A pesquisa busca construir uma fundamentação teórica a partir do entendimento das bases moleculares da semente, para identificar quais são as suas propriedades e o que pode ser explorado. O objetivo do projeto é converter a semente do açaí, fazer o aproveitamento dela de forma a gerar um ganho na cadeia produtiva do alimento, ajudar a solucionar um problema ambiental do Brasil e explorar seu potencial energético através do biogás — explica a doutora em Bioquímica, de 34 anos.
Formada em Microbiologia e Imunologia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ayla conta que após a conclusão do doutorado, em que estudou as propriedades da cana de açúcar, desejava pesquisar algo diferente. A cientista, que já realizou pesquisas em universidades de Espanha, Suécia e Japão, onde trabalhou por cerca de dois anos, acredita que seu trabalho servirá de insumo para outros desdobramentos sobre o potencial do açaí.
— Nós ainda não temos uma visão aprofundada sobre as propriedades da semente do açaí. Estudos preliminares já demonstram a riqueza desse material. Essa pesquisa poderá servir de base para outros estudiosos darem novas abordagens e aplicações para essas substâncias — analisa Ayla.
O financiamento da pesquisa veio através do Instituto Serrapilheira, organização de incentivo à ciência, que direcionou R$ 1 milhão para o desenvolvimento do estudo. Após concorrer com outros 65 cientistas, Ayla ficou entre os selecionados para o recebimento do recurso para desenvolver seu trabalho ao longo dos próximos três anos.
Fonte: O Globo
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