
18/07/2019
Uma equipe internacional de pesquisadores reivindicou esta quarta-feira, em estudo publicado na revista “Science Advances”, uma moratória à expansão do cultivo da soja no Cerrado . Mantido o ritmo atual de devastação, o bioma pode perder cerca de 1,4 milhão de hectares em apenas uma década, uma área equivalente a quase metade do tamanho da Bélgica.
A moratória, segundo o levantamento, funcionaria como um acordo de desmatamento zero, proibindo a venda ou compra de soja cultivada em áreas recentemente desmatadas. A medida foi instituída na Amazônia em 2006. Mesmo com a restrição territorial, a produtividade aumentou, já que foram realizados investimentos em regiões degradadas.
De acordo com os cientistas, a moratória impediria a conversão de 3,6 milhões de hectares de vegetação nativa em terras agrícolas até 2050.
— O Cerrado está desaparecendo diante da produção de commodities agrícolas — alerta Aline Soterroni, pesquisadora do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IISA). — Menos de 20% do bioma ainda não sofreu intervenção humana. Por isso, a partir de 2020, toda a podução de soja deve ser realizada em áreas que já foram desmatadas e hoje são usadas apenas para pastagens.
Mais de 4.800 espécies encontradas unicamente no Cerrado poderão ser extintas nas próximas décadas. Apenas 13% da área do bioma está sob alguma forma de proteção — na Amazônia, este índice é de quase 50%.
Em determinadas áreas do Cerrado, os proprietários de reservas legais são obrigados a preservar apenas 20% da vegetação nativa. Ainda assim, assinala Aline, a determinação imposta pelo Código Florestal não está sendo cumprida. O desmatamento provoca a emissão de gases estufa para a atmosfera e, assim, amplia a ameaça do aquecimento global. A moratória, por outro lado, reduziria a liberação de carbono pelo Brasil em 8% de 2021 a 2050.
— As leis existentes não são suficientes — lamenta Aline, que também integra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). — O Cerrado é a savana mais rica do mundo, tanto por sua biodiversidade quanto pelas bacias hidrográficas ali presentes. Mas falta vontade política para conter a demanda crescente dos desmatadores.
Pesquisador sênior do Inpe, Fernando Ramos considera que, além da proteção ambiental, a moratória é “uma questão de relações públicas”:
— O Brasil e o Mercosul estão estabelecendo acordos comerciais com a União Europeia, e os consumidores estão cada vez mais exigentes sobre a origem dos produtos. A exportação da soja, então, ficará vulnerável, caso o mercado perceba sua relação com o desmatamento do Cerrado.
Ramos avalia que os bens naturais do bioma estão despertando mais interesse da população e das ONGs. Por isso, as empresas que atuam na região deveriam estabelecer monitoramentos e auditorias para nortear a exploração da região.
— O Cerrado é um importante provedor de serviços ambientais para o país. Será um desastre se ele for devastado, como ocorreu no passado com a Mata Atlântica. Não aprendemos a lição?
Fonte: O Globo
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