
16/07/2019
Um fenômeno climático que ocorreu bem longe do Brasil teve efeitos severos no país, como a seca que ocorreu no Sudeste no verão de 2013/2014 e gerou uma crise hídrica em São Paulo. A constatação faz parte de um estudo sobre como uma perturbação atmosférica no Oceano Índico causou, além das secas na América do Sul, ondas de calor marinhas no Atlântico Sul. O trabalho foi publicado na revista científica “Nature Geoscience” e liderado pela professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Regina Rodrigues.
A pesquisa traçou o motivo da estabilidade da alta de temperatura no Sudeste e Sul do Brasil naquele verão. De acordo com o trabalho, o início se deu com uma perturbação atmosférica no Oceano Índico. O fenômeno gerou uma onda planetária que atravessou o Pacífico Sul e chegou ao Atlântico Sul.
— Identificamos que convecção (chuvas tropicais intensas) no Índico deflagra perturbações na atmosfera que se propagam e mudam a circulação atmosférica sobre o Sudeste do Brasil. A circulação se torna anti-horário e não permite a formação de nuvens. Com isso, não há chuva durante o verão. Quanto mais persistente for essa circulação, mais prolongada será o período seco. Como no verão, tem muita insolação, sem as nuvens, o calor aumenta, gerando ondas de calor na terra e no mar — explica Rodrigues.
Em 2013/2014, o bloqueio foi tão persistente que quase não choveu durante todo o verão no Sudeste e Sul do país. As chuvas dessa região vêm da zona de convergência do Atlântico Sul. No verão de 2013/14, houve uma massa de alta pressão que não deveria estar lá e não permitiu que a zona de convergência se formasse. Isso gerou longos períodos de seca, como um de 15 dias e outro de 30. As temperaturas também subiram, aumentaram 5° Celsius acima da média.
A pesquisa sugere que não é a primeira vez que o Oceano Índico levou a eventos extremos no Brasil e que fenômenos semelhantes podem ocorrer com maior frequência e intensidade.
Para Rodrigues, um dos grandes ganhos do estudo é a chance de entender e prever próximos fenômenos climáticos. E, assim, se preparar para enfrentá-los:
— Agora que identificamos um processo físico, o mecanismo, que ocorre lá no Índico e gera essas ondas de calor, podemos monitorá-lo. Nem sempre tem como evitar que ocorra, mas pode se preparar na parte terrestre, como sobre uma seca ou onda de calor — observa.
Sobre esse último fenômeno, que traz sérias complicações de saúde e até mortes — como ocorreu na Europa, neste ano —, a pesquisadora explica que elas ocorrem todo ano. A diferença é a sua intensidade e permanência, o que vem se agravando com o aquecimento global. Há estudos que preveem, inclusive, um aumento na extensão do fenômeno nos próximos verões.
Outro destaque importante do estudo, segundo Rodrigues, é o efeito de aquecimento no oceano, que forma ondas de calor marinhas, gerando uma série de impactos nesses ecossistemas. Naquele verão de 2013/ 2014, por exemplo, o aumento de temperatura no oceano foi de 3°C. Segundo estudos em outros locais do mundo, já se percebeu que possíveis impactos disso são embraquecimento de coral e efeitos nocivos na pesca. E estudos globais de ondas de calor marinhas mostram que a tendência é de que esses eventos sejam mais frequentes no futuro.
Diante disso, agora, a pesquisadora explica que o próximo passo é descobrir os impactos das ondas de calor marinhas no Atlântico Sul, na costa brasileira. Isso acontecerá a partir da participação de Rodrigues em um projeto de pesquisa, o Triatlas, financiado pela Comunidade Europeia, através do Programa Horizon 2020, com investimento de 20 milhões de euros e a participação de 35 universidades, incluindo a UFSC.
Serão quatro anos para análise de dados, com navios oceanográficos colaborando no processo no Atlântico, para analisar o antes e depois do fenômeno de calor. O primeiro encontro do grupo será em agosto, na Universidade de Bergen, na Noruega, que coordena o programa.
— Temos três áreas de estudo: nossa costa do Brasil, Sudoeste do Atlântico Sul, uma na África do Sul, na Corrente de Benguela, e no Atlântico Tropical, que vai da África ao Brasil — diz Rodrigues, acrescentando que pode ocorrer outra onda de calor durante os anos da pesquisa, que poderá ser monitorada.
O estudo publicado na “Nature” teve a colaboração de Andréa Taschetto, Alex Sen Gupta (ambos da Universidade de New South Wales, na Austrália) e Gregory Foltz (do Laboratório Oceanográfico e Meteorológico do Atlântico, dos EUA).
Fonte: O Globo
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