
04/07/2019
Um dos compromissos assinados pelo Brasil no Acordo de Paris , firmado em 2016, era recuperar até 2030 pelo menos 12 milhões de hectares das nossas florestas tropicais que já haviam sido destruídas, já que esse tipo de vegetação é fundamental, entre outras coisas, para reduzir o nível de carbono do ar. Mas onde? Quais áreas exatamente devem ser priorizadas?
Essa é apenas uma das muitas respostas que um estudo inédito publicado hoje na revista especializada "Science Advances" busca trazer.
Liderado pela americana Robin L. Chazdon, da Universidade de Connecticut, e pelo pesquisador Pedro Brancalion, da USP , o projeto foi financiado pela National Science Foundation , uma das maiores agências de fomento americanas, e tinha como objetivo elaborar um mapa global com as regiões mais atraentes para restauração das florestas tropicais degradadas, tanto sob o ponto de vista ambienal quanto econômico e social.
A conclusão é que 11% ou 100 milhões de hectares ao redor do mundo (uma área equivalente à Espanha e à Suíça juntas) possuem boas condições para o reflorestamento, com altas relações de custo-benefício em termos de redução de emissões de carbono , preservação da água e da biodiversidade das espécies, além de vantagens econômicas.
O Brasil lidera esse ranking de áreas, seguido de Indonésia, Madagascar, Índia e Colômbia.
— Nos últimos cinco anos, surgiram várias metas globais com propostas de recuperação de florestas para enfrentar os principais problemas ambientais atuais, mas muitas delas estão num nível muito superficial. O que queremos propor com esse estudo é como operacionalizar essas metas. É uma etapa importante para atrair países, empresas e governos para essa agenda de restauração — acredita Brancalion.
Durante quatro anos, Brancalion e outros 11 pesquisadores avaliaram 66 países que possuem florestas tropicais em seus territórios, cruzando imagens de satélite de alta resolução e informações de bancos de dados.
A partir daí, definiram quatro prioridades a serem buscadas pelos benefícios da restauração: a conservação da biodiversidade (quanto maior o número de espécies potenciais, maior a importância); o potencial de estoque de biomassa de carbono; a adaptação às mudanças climáticas (quanto maior a velocidade da mudança de clima, maior a relevância); e a capacidade de garantir a segurança hídrica.
Paralelamente, avaliaram a viabilidade do reflorestamento, como, por exemplo, os ganhos dos agricultores em determinada área (quanto mais altos, menores as chances de restauração) e as chances de persistência da floresta no longo prazo.
Num momento posterior, atribuíram "notas" às terras tropicais, chegando num índice de "oportunidade".
Os pontos mais promissores estão entre os 10% com melhor avaliação, ou seja, são aqueles que trariam mais benefícios com o menor custo e risco.
— Para efeitos de comparação, na fronteira de desmatamento da Amazônia, as pressões sociais e econômicas são na direção da perda de floresta. É muito arriscado e difícil investir dinheiro nessa região. Ao passo que, no interior de São Paulo, por exemplo, onde já existe uma governança ambiental mais bem consolidada e pressões no sentido inverso, tenho uma chance maior de que uma floresta com investimentos em recuperação persista no tempo — explica o pesquisador.
Além de um encontro no Ministério do Meio Ambiente para apresentar o estudo, no próximo dia 17, o próximo passo é o lançamento de um aplicativo, o GoFor, em fase final de desenvolvimento, para sistematizar o uso da base de dados.
— A ideia é que uma ONG possa mandar para seus investidores um relatório com nosso mapa, mostrando que atua em área com as melhores oportunidades. Para poder dizer: "Em vez de investir na Indonésia, invista aqui". Governos de outros países também podem acessar os dados, as aplicações são múltiplas — detalha Brancalion — Está provado que a restauração das florestas é a estratégia mais barata, uma das mais eficientes e com múltiplos benefícios associados para reverter a deterioração do meio ambiente. Não há outro caminho. Em algum momento, a gente vai ter que fazer um melhor uso das áreas que já foram degradadas.
Fonte: O Globo
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