
02/07/2019
O Pantanal é atualmente a casa de mais de dez milhões de jacarés (Caimam crocodilus yacare), mas o Hotel Baiazinha, localizado na margem do Rio Paraguai, em Mato Grosso, adotou só um como jacaré de estimação. "É o Pedrinho", contou Margarete dos Santos Silva, funcionária do hotel, sobre o bicho de mais de metro que recebeu a reportagem do G1 em uma visita em maio. Pedrinho talvez ainda não tivesse nascido na década de 1980, quando sua espécie virou o alvo preferido do comércio de peles que matou pelo menos 5 milhões de exemplares, mas assistiu ao nascimento e expansão do negócio legal de criação de jacarés-do-pantanal para consumo.
Só em um dos criadouros, atualmente mais de 70 mil animais são criados desde a choca até o abate - os ovos são capturados nos ninhos das fêmeas selvagens. Os defensores do modelo de negócios argumentam que, ao contrário do abate ilegal dos jacarés silvestres, no criadouro eles crescem com a carne mais macia, e por isso é possível aproveitar quase a totalidade do corpo.
Já os exemplares que precisam sobreviver na natureza se locomovem muito mais, seja dentro ou fora d´água, e por isso a única parte comestível para humanos é o rabo.
É o caso de Pedrinho. Sempre perambulando pelo entorno do hotel, ele já se apegou aos funcionários, e os segue com os olhos, ignorando os demais visitantes desconhecidos. Como todos os demais exemplares da espécie, ele é calmo, capaz de ficar muito tempo imóvel e se alimenta principalmente de peixes e animais invertebrados.
Foi a docilidade que colocou o jacaré na mira dos coureiros paraguaios, que invadiram o Pantanal brasileiro em busca de animais para atender à demanda por peles na década de 1980, principalmente vinda de um comprador que chegou ao Paraguai.
Além dos paraguaios, brasileiros e bolivianos também se envolveram no confronto, que durou cerca de dez anos, com as autoridades tentando impedir que os animais fossem mortos, suas peles retiradas e transportadas de avião até o Paraguai.
Houve mortos dos dois lados. Rabelo chegou a levar um tiro no ombro em um confronto que deixou um colega seu morto, da mesma forma como os coureiros costumavam matar o jacaré: um tiro entre os olhos.
O coronel, que hoje está reformado e trabalha como diretor de Relações Institucionais do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), explica que a guerra contra os coureiros só se resolveu depois que o governo brasileiro criou a Polícia Militar Ambiental (PMA), com policiais especializados em crimes ambientais, e reforçou o contingente.
No fim da década, cerca de 200 policiais atuavam nesse combate, e a experiência adquirida, principalmente na navegação dos afluentes e nos caminhos de água conhecidos como corixos, que variam bastante de acordo com o nível de inundação do bioma, ajudaram a controlar a questão. Outro elemento também foi chave: uma legislação mais rígida.
Apesar de a caça a animais silvestres ser ilegal no Brasil desde 1967, foi só com a Lei Fragelli, aprovada em 1988, que ela de fato se tornou um crime.
A partir da década de 1990, a população de jacarés voltou a crescer, e desde o início da década especialistas já estimam que há vários milhões de exemplares do Caimam yacare no Pantanal.
Mas se as ameaças antes eram de compradores de pele que se aproveitaram da legislação flexível, hoje os animais continuam sendo alvo esporádico de moradores locais e turistas de pesca, que, longe dos olhos da fiscalização, matam o jacaré apenas para arrancar a cauda e comer a carne.
Leia a matéria completa no G1
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