
06/06/2019
Quinze minutos de atraso, Fernanda Cortez abre a porta do apartamento, no Jardim Botânico, e logo se desculpa: estava gravando os podcasts da semana. Apenas um dos conteúdos que a ativista ambiental e hoje empresária faz, entre vlogs, webséries, artigos e colunas sobre sustentabilidade, para alimentar seu site Menos 1 Lixo e, consequentemente, o perfil no Instagram, um dos maiores no tema, com quase 400 mil seguidores.
Ela pede um minutinho e reaparece dentro de um vestido vermelho, pronta para as fotos e entrevista — aproveitando qualquer pausa para despachar um documento no computador, assinar um cheque e acertar detalhes de sua próxima palestra (dessa vez, para promotores de Justiça). A agenda é apertada, mas o ritmo muda quando está com a palavra, sempre firme, defendendo a causa que abraçou há sete anos, mudando por completo a vida.
Fernanda (ou Fe, como assina) é formada em Administração, trabalhou com moda por 10 anos (passou por marcas como C&A e Farm) e comandou duas agências de conteúdo. Em 2012, uma sessão de cinema virou o divisor de sua biografia. O documentário “Trashed”, com Jeremy Irons mostrando o caminho do lixo em diversos lugares do mundo, mexeu tanto com a moça que, naquele mesmo dia, ela comprou duas dúzias de copinhos retráteis de metal chineses, presenteou amigos e guardou um na bolsa. Mergulhou na pesquisa sobre sustentabilidade, matriculou-se em cursos internacionais on-line e quis transformar aquela complexidade toda em uma linguagem fácil, afastando a imagem do “ecochato”. Veio a ideia do site e de lançar um desafio: “Convidei alguns artistas para cortar o consumo de copos descartáveis por uma semana. Todos aderiram, postaram em suas redes. A Nanda Costa, por exemplo, economizou 99 copos”, lembra. “Já eu, em 2015 inteiro, evitei um total de 1.618. Só no Brasil, consumimos 720 milhões por dia.”
Em junho de 2016, Fe lançou o seu copo Menos 1 Lixo. Retrátil, de silicone e com tampa, o modelo é todo produzido no Brasil, com oito cores diferentes e 200 pontos de venda pelo país. Também dá nome ao movimento que cresce a cada ano, financiado com o sucesso do produto. A ativista comanda uma equipe de 12 pessoas e virou uma referência carioca quando o assunto é sustentabilidade. É defensora da ONU Meio Ambiente pela campanha Mares Limpos. “A intenção é resolver um problema do planeta: o lixo. Nós trabalhamos por mudanças de política pública e também no empoderamento do indivíduo, para ele ser o catalisador dessa mudança, sem esperar que o governo, o chefe ou a indústria resolva.”
O dia a dia de Fernanda também foi impactado pela causa, com mudanças de hábito. Ela garante que é fácil, barato e nada hippie aderir a uma vida sustentável, ao contrário do que muitos acreditam. Na área de serviço de seu apê, há caixas vermelhas empilhadas formando uma composteira, que transforma resíduos orgânicos em adubo. Na cozinha, potes de vidro guardam os mantimentos comprados a granel e levados em saquinhos de pano. Entre os móveis, nada foi comprado novo — tudo conseguido de segunda mão em feirinhas e sites. Tem a penteadeira herdada da avó, os caixotes de feira que viraram estante para os sapatos dos visitantes, a mesinha de tronco de árvore com rodinhas. “Peguei aqui na pracinha, de uma árvore que tinha caído.”
A carioca de 38 anos só roda pela cidade de bicicleta elétrica, não faz mais as unhas e não come carne vermelha desde a última vez que visitou a Amazônia. “Vi o desmatamento que o agronegócio está fazendo lá.” Nos últimos meses, decidiu que não trabalha mais de manhã e resolveu ter dois celulares, assim um fica apenas para o trabalho, evitado nos fins de semana. “Precisamos desmistificar que é legal ser muito ocupado. Isso é burrice e nada sustentável”, brinca ela. “Sustentabilidade é sobre sair do piloto automático, fazer contato com você mesma, sobre se libertar.”
Veja os 10 (primeiros) passos para uma vida mais sustentável em O Globo
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