
05/02/2019
“A cachoeira é barranco de chão, e a água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou se desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso”, escreveu João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. Cachoeiras, nascentes, riachos, rio, floresta, a barragem da Vale em Brumadinho matou tudo em seu caminho, num golpe de uma onda de rejeito só. Menor em quilômetros do que o desastre de Mariana, causado pela Samarco controlada pela mesma Vale, o de Brumadinho é gigante em gravidade: as florestas e rios afetados eram muito mais ricos e importantes para o equilíbrio ambiental, salientam especialistas.
— Desta vez, a perda de vidas humanas é colossal. Mas isso não significa que o dano ambiental seja pequeno, ao contrário. Florestas de enorme importância hídrica e para a biodiversidade foram perdidas. O dano ambiental fará sofrer população e natureza por muitos anos — afirma Servio Pontes Ribeiro, professor de ecologia da saúde da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que estuda o impacto do desastre de Mariana e agora se debruça sobre o de Brumadinho.
O rompimento da barragem de rejeito de minério de ferro da Vale em Córrego do Feijão despejou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de lama numa das áreas de maior importância ambiental de Minas Gerais, com danos para a segurança hídrica e a biodiversidade.
A lama da Vale afetou, destacam cientistas, algumas das últimas áreas significativas de Mata Atlântica e Cerrado de Minas, dentro da Reserva da Biosfera da Unesco da Serra do Espinhaço. O lugar é considerado um refúgio de vida selvagem. Delas vem a água que dá de beber a homens e animais. Sem bichos que semeiam as árvores não há floresta, sem floresta não há água. E sem água, perecem os homens. Guimarães Rosa, que se criou nas terras do sertão do Paraopeba, foi profético sobre sua terra natal. Viver sob as barragens de mineração, é mesmo muito perigoso.
A lama desce lentamente, mas não vai parar, alerta Ribeiro. E, desta vez, afetou o Paraopeba, um rio até então mais saudável que o Doce e seus tributários, arrasados pela barragem da Samarco, em 2015. Não se sabe o quanto de lama se entranhará no leito do Paraopeba, um rio que era a reserva da região metropolitana de Belo Horizonte para as secas, acrescenta Ribeiro.
Ao matar a vida microbiana no solo e no leito dos rios, o impacto ambiental ganha profundidade e duração de décadas, avalia Vasco Azevedo, cujo grupo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) investiga a relação entre o desastre de Mariana e casos de dengue, zika e febre amarela.
Análise preliminar do Ibama indicou que 2,6 milhões de metros quadrados de mata foram destruídos pela lama. Essas eram algumas das melhores florestas de Minas, frisa Yasmine Antonini, ecóloga e especialista em matas protetoras de cursos d’água do Departamento de Biodiversidade e Meio Ambiente da UFOP e que também estuda o impacto do desastre de Mariana.
Saiba mais em O Globo
Vendaval turbinado que atingiu o Rio e São Paulo é a ´ponta do dedo do longo braço´ do El Niño; entenda
30/07/2026
VÍDEO: maior espécie de raia do mundo é registrada durante pesquisa com baleias no ES
30/07/2026
Sucuri-amarela infestada de carrapatos impressiona no Pantanal; biólogo explica
30/07/2026
Presença de golfinhos em Fernando de Noronha cai quase pela metade em dez anos
30/07/2026
El Niño: governo prevê gastar até R$ 1,3 bilhão para enfrentar secas, chuvas intensas e incêndios
30/07/2026
Mercúrio se acumula duas vezes mais rápido na Península Antártica, aponta estudo
30/07/2026
