
04/12/2018
O nome Guaratiba é herança dos tupinambás: na língua dos índios que habitavam nosso litoral, significa lugar com guarás (ou garças) em abundância. Os indígenas podem ter se inspirado nas garças — como as brancas e azuladas — que vivem na região ou, literalmente, nos guarás, uma ave de vermelho vivo e bico fino e longo, considerada uma das mais belas do planeta, que paira na imaginação da população local. Ela é nada menos que o símbolo da Reserva Biológica Estadual de Guaratiba e já ilustrou de folder de festival de música a marca de associação de moradores. Só que, há mais de duas décadas, não sobrevoa Guaratiba. O último relato confiável sobre a sua presença por lá (e no Rio) é de 1996.
Mas o bom filho à casa torna: o projeto de reintrodução “Volta guará”, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), pretende avermelhar de novo Guaratiba. A ave é classificada como criticamente ameaçada no estado. No entanto, biólogos dizem que ela está extinta aqui.
— Em um programa de TV, vi que o guará estava sendo reproduzido em cativeiros no Norte e era enviado para instituições. Pensei: por que não Guaratiba tê-los de volta? — conta Diana Levacov, bióloga da reserva e coordenadora do “Volta guará”, que prevê a vinda de 20 animais de um parque de Belém para o manguezal de Guaratiba.
Finalizado no mês passado, o projeto está em fase de captação de recursos — no momento, participa de edital do Fundo de Defesa de Direitos Difusos, do Ministério da Justiça, que financia iniciativas de reparação de danos, como ao meio ambiente. Mas o time do projeto — avaliado em R$ 2,5 milhões, para aplicação em dois anos — não descarta apoio da iniciativa privada. A ideia é que o bichinho vire um ícone de preservação do manguezal, cumprindo, com o seu encantamento, o papel de “guarda-chuva”, que é o de ajudar a proteger outras espécies.
O guará vive em bando e suas revoadas são atração turística em estados do Norte. Ele se alimenta de caranguejos — responsável pela sua cor vermelha —, encontrados em grande quantidade na Reserva de Guaratiba, que tem 36 quilômetros quadrados.
— Quando a maré enche, os guarás têm que percorrer muitas áreas para se alimentar. E, como os jovens não têm um sistema digestivo bom para o sal, os adultos precisam buscar alimento para os filhotes no interior do mangue. Por isso, o guará necessita de uma área grande para viver — explica o biólogo Bruno Cid, do núcleo de pesquisas em biodiversidade, áreas protegidas e ecossistemas do Inea. — Conservando essa espécie, você conserva tudo o que está embaixo dela no mangue.
Antes de embarcarem de avião para o Rio, os guarás passarão por um período de quarentena no Norte e receberão transmissores para que sejam monitorados. Já em Guaratiba, a primeira etapa será de aclimatação. O trabalho envolve ainda educação ambiental, para afastar os vilões que contribuíram para extinguir a ave: a coleta de ovos, a caça e a remoção das penas, sem contar a poluição. O plano é ajudar na adaptação do grupo, colocando nas árvores bonecos de guarás pintados por crianças nas escolas.
No Brasil, os guarás antigamente eram vistos em todo o litoral, com duas populações grandes: uma do Amapá ao Maranhão e outra do Rio a Santa Catarina. Atualmente, no Sudeste, estão presentes apenas em Cubatão e na Ilha Comprida, em São Paulo.
No século XIX, eles coloriam a Baía de Guanabara. Teriam começado a desaparecer no Rio na década de 1970, sendo que o último bando, com 15 animais, foi visto em 1952 na foz do Rio Magé. Há registros de um guará em 1979 na Lagoa da Tijuca, e outro em 1996 em Guaratiba, onde o bicho é uma lenda.
— Alguns moradores dizem que veem a ave, mas vamos atrás e nunca encontramos — conta Diana Levacov.
Papa da ornitologia brasileira, o alemão Helmut Sick descreveu a ave como uma das “mais espetaculares do globo”. Se depender do carisma e da beleza do guará, o mangue de Guaratiba está a salvo.
Fonte: O Globo
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