
04/12/2018
A cientista brasileira Livia Eberlin, de 32 anos, não usa meias palavras para descrever sua surpresa quando recebeu uma ligação da Fundação MacArthur com a notícia de que era uma das 25 pessoas escolhidas para receber a prestigiosa bolsa da instituição este ano, conhecida informalmente por beneficiar gênios.
— Quase caí dura no meu escritório. Quando falaram que era da fundação, achei que não fosse possível. Não sabia o que dizer — admite a pesquisadora, que é professora do departamento de química da Universidade do Texas em Austin.
A reação não foi exagerada: anualmente, a fundação, uma das maiores dos Estados Unidos, seleciona talentos que tenham se destacado “criativamente” em diferentes campos, das artes à computação. Os escolhidos pela MacArthur recebem US$ 625 mil ao longo de cinco anos, sem nenhuma exigência em contrapartida, para que possam continuar a desenvolver seus trabalhos com conforto e liberdade.
— O legal da MacArthur é que é de fato uma surpresa total para quem ganha. Eles são superdiscretos e não revelam quem fez as indicações para se chegar aos eleitos. A única coisa que me revelaram é que levam em consideração pelo menos 30 cartas de recomendação — explica Livia.
O que rendeu à brasileira a lembrança de seus pares foi sua pesquisa em um campo específico da espectrometria, usada para medir a massa das moléculas presentes numa determinada amostra. O grupo liderado por Livia tem se dedicado a investigar como a técnica pode ser utilizada para facilitar o diagnóstico de câncer de pele.
Ela e sua equipe desenvolveram a MasSpec Pen, aparelho no formato de uma caneta que permite identificar se o paciente tem câncer em apenas dez segundos. Hoje, uma análise padrão pode levar até duas horas para obeter o resultado definitivo.
— Se a espectrometria for feita em uma amostra bem complexa como um tecido humano, você adquire um espectro capaz de revelar a composição da amostra e a abundância dessas moléculas. Tecidos normais e tecidos cancerosos têm uma composição completamente diferente. Com a tecnologia que desenvolvemos, conseguimos analisar esses perfis em questão de segundos — detalha Livia, que ressalta que a caneta está em fase de testes.
Jovem, mas com vasto currículo, a brasileira considera “muito estranho” que alguém a chame de “gênio”.
—Jamais pensei que gostaria de ser chamada deste modo. Parece que a pessoa está exagerando. O interessante é que, se você olhar as pessoas que receberam o prêmio, elas não viriam imediatamente à sua mente se você pensasse em “gênio”. Há uma diversidade de ideias e de conhecimento anterior ali. A palavra faz lembrar o Einstein, o estereótipo de um homem branco e idoso — observa.
Nos Estados Unidos, a indicação da brasileira tem sido apontada como uma vitória para a comunidade latina, alvo de preconceito no país. Para ela, a conquista é válida por mostrar que latinas podem ser bem-sucedidas na maior potência do planeta para além do campo do entretenimento.
— A maioria dos latinos que fazem sucesso por aqui são artistas de Hollywood, como Eva Longoria ou Sofia Vergara, por exemplo. É estranho quando você é a única pessoa de um determinado tipo em um lugar, como a universidade. — diz ela, que em seu laboratório comanda uma equipe em que, curiosamente, as mulheres são maioria.
Apesar de trabalhar no exterior, sua formação foi no país e ela a classifica positivamente.
— Minha formação no Brasil foi maravilhosa. Quando comecei o doutorado nos EUA me senti tão capacitada quanto os outros doutorandos — diz a cientista, que aponta a falta de recursos como o grande abismo que separa a ciência americana em relação a outros países.
Fonte: O Globo
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