
01/11/2018
Pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto sugerem que o vírus da zika que circula no Brasil pode ter um ciclo silvestre – ou estar prestes a estabelecer um. Num artigo publicado nesta terça-feira no periódico Scientific Reports, uma revista do grupo Nature, a equipe liderada pelo professor Maurício Nogueira (e que envolveu cientistas de diversas universidades brasileiras e da Universidade do Texas), afirma ter detectado a presença do vírus em macacos que viviam em regiões próximas a centros urbanos. Ou seja, mesmo que sua propagação pareça estar sob controle nas cidades, o zika pode resistir nas matas, tal qual o vírus da febre-amarela.
A descoberta sinaliza que o patógeno pode ser transmitido a outras espécies de primatas além dos humanos:
— Se o ciclo silvestre for confirmado, precisaremos mudar a forma como encaramos o problema. Porque ele passa a ter um reservatório nas florestas, de onde não pode ser erradicado — explica Nogueria, que também preside a Sociedade Brasileira de Virologia.
A suspeita de que o zika possa ter um ciclo silvestre nas Américas assombra os pesquisadores desde que o vírus foi detectado no continente. O Zika foi isolado pela primeira vez em 1947 nas florestas de Uganda, na África. Chegaria ao Brasil em 2013, por onde se propagou até atingir níveis epidêmicos em meados de 2015. Por aqui, a infecção pelo vírus provocou consequências até então desconhecidas, como os casos de microcefalia.
Originalmente, o zika era um vírus silvestre que, vez ou outra, escapava às florestas para infectar humanos. Mas não se sabia se ele repetiria esse comportamento em outros continentes. Até hoje, explica Nogueira, não foi detectado um ciclo silvestre do zika na Ásia, por exemplo:
— Além disso, os macacos que existem nas Américas são muito diferentes, geneticamente, dos macacos africanos. Apesar dos nossos temores, havia chances de não serem susceptíveis ao vírus.
O trabalho de Nogueira indica que são. As investigações dos pesquisadores começaram em janeiro de 2017, durante uma das epidemias de febre-amarela silvestre que estouraram no país nos últimos dois anos. Nessas ocasiões, se tornaram frequentes casos de macacos mortos pela população, temerosa do contágio. Boa parte desses primatas não estava contaminada pela febre-amarela:
— Mas não é fácil matar macaco. Alguma coisa os estava deixando mais vulneráveis. Decidimos investigar se era o zika.
A equipe examinou 82 carcaças de saguis e micos mortos em São José do Rio Preto e em Belo Horizonte. Da amostra, 32 animais apresentavam o vírus em seus tecidos. Nas mesmas regiões em que as carcaças foram coletadas, a equipe encontrou mosquitos infectados pelo vírus da zika. Na etapa seguinte, os pesquisadores induziram a contaminação de primatas vivos. Os macacos desenvolveram os sintomas de uma infecção — confirmando a hipótese de que o zika os tornara mais vulneráveis aos ataques de humanos.
Segundo Nogueira, para confirmar a existência de um ciclo silvestre, é preciso ainda encontrar macacos contaminados no interior das matas.
A matéria pode ser lida em O Globo
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