
06/09/2018
Na época em que os europeus estavam chegando ao Novo Mundo, um povo ainda desconhecido, nativo da região central da Amazônia, realizou uma cerimônia fúnebre coletiva. Por 500 anos, vasos de cerâmica contendo ossadas ficaram escondidos sob grossa camada de terra e sedimentos.
As primeiras foram encontradas em 2014, por acaso, durante obras realizadas pelos moradores da comunidade Tauary. Agora, uma equipe de pesquisadores liderada pelo Instituto Mamirauá descobriu uma cova com nove urnas funerárias, cuidadosamente agrupadas. É a primeira vez que tais vestígios são descobertos in loco por arqueólogos profissionais.
— As urnas funerárias não são exatamente raras na Amazônia, mas todas as que conhecemos foram encontradas por moradores das comunidades. Alguém que foi fazer uma roça ou construir uma casa e topou com elas. Muitas vezes, acham interessante e guardam ou limpam para usar a cerâmica. Nesse processo, informações preciosas do campo são perdidas — explica Eduardo Kazuo, coordenador do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá.
Ao todo, foram encontradas 16 urnas funerárias no sítio arqueológico de Tauary — uma comunidade com 21 famílias nas margens do Rio Tefé —, sendo nove na última expedição, entre 10 e 25 de julho. Estas estavam cuidadosamente dispostas numa única cova.
Chamou a atenção dos pesquisadores o fato de os vasos terem rostos desenhados e nenhum estar virado de frente para outro. E os artefatos foram encontrados na mesma camada de terra, a cerca de 40 centímetros de profundidade. Para Kazuo, essas evidências indicam que as nove urnas foram colocadas juntas, de maneira intencional.
— É como se elas não quisessem “olhar” uma para a outra. As urnas seguiam uma ordem, claramente foram enterradas daquele jeito — conta Kazuo. — O que isso quer dizer, a gente não faz a menor ideia. O que é certo é que existe uma intenção, pode ser religiosa, uma crença que faça sentido no universo simbólico desse povo perdido.
A matéria pode ser lida em O Globo
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