
23/08/2018
Uma prática centenária e controversa está gerando comoção entre ambientalistas, mas uma forte defesa do governo das Ilhas Faroe. Conhecida como “grindadráp”, a caça de baleias e golfinhos no pequeno arquipélago entre a Escócia, a Noruega e a Islândia acontece durante os verões no Hemisfério Norte, com registros que remontam ao ano de 1.584. Para a população local, trata-se de uma longa tradição que reforça os laços comunais e deve ser respeitada, mas críticos argumentam que a matança é desnecessária e, apesar de legal, representa desprezo pela vida dos animais.
Imagens divulgadas pela ONG Sea Shepherd são chocantes. Em cada caçada dezenas de baleias-piloto e alguns golfinhos de diferentes espécies são mortos após serem encurralados nas praias, com cortes profundos no pescoço que rompem a medula espinhal. A técnica foi regulamentada pelo governo como uma forma de “humanizar” a matança, pois a morte acontece em poucos minutos. O sangue se espalha rapidamente, pintando o mar de vermelho.
A caçada começa com o avistamento de baleias perto de alguma das 23 praias aprovadas para o “grindadráp”. Rapidamente, uma multidão é mobilizada por meio de mensagens, redes sociais e sites de notícias. Algumas empresas e escolas liberam funcionários e estudantes para que possam participar do evento. Pescadores zarpam com barcos, lanchas e jet skis e cercam o grupo de cetáceos para conduzi-los para a costa, onde matadores licenciados os aguardam com ganchos para imobilizar e puxar os animais e facas afiadas para o abate.
— A caça é quase um orgulho nacional, tratada como um evento esportivo. Algumas escolas liberam os alunos. Famílias inteiras, até com bebês de colo, vão para as praias acompanhar. Só homens podem participar propriamente da caça, as mulheres e crianças só podem assistir e brincar com as baleias mortas — relata Robert Read, diretor de operações da Sea Shepherd do Reino Unido. — A população é incentivada a pensar que isso é normal, mas não é. Não há matança de baleias como essa em nenhuma outra parte do mundo. Eles exterminam o grupo inteiro, incluindo fêmeas grávidas e animais jovens.
Em média, cerca de 800 baleias-piloto são mortas anualmente, mas o número varia. Ano passado, por exemplo, foram 1.203 baleias e 488 golfinhos, mas em 2016 foram apenas 295 baleias. Os registros indicam que nas últimas cinco décadas mais de 62 mil baleias e golfinhos foram mortos no “grindadráp”. O governo argumenta que a prática é sustentável, citando números da Comissão Baleeira Internacional que estima em 780 mil o número de baleias-piloto nos mares do Atlântico. Os números, porém, são de 1989.
Segundo o italiano Fabrizio Santoro, que mantém um blog e uma página no Facebook em defesa do “grindadráp”, apenas 0,2% das baleias-piloto do Atlântico Norte são mortas pela caça. “Muitas mais morrem pela poluição, mas ninguém parece se preocupar”, argumenta, acrescentando que a carne ainda representa uma porcentagem relevante da dieta dos feroeses. Em tese, a carne e a gordura não são comercializadas, mas divididas entre os participantes da caçada e distribuídas entre a população mais velha que não tem mais condição de caçar.
— Muitos feroeses estocam a carne no freezer como uma reserva para os períodos mais difíceis — afirma Santoro. — Nas Ilhas Faroe não existem cidades grandes, a capital tem apenas 12 mil habitantes. E acontece de navios não conseguirem chegar ao arquipélago durante o inverno.
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