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Pesquisadores descobrem cemitério monumental de 5 mil anos na África

20/08/2018

Um grupo internacional de pesquisadores encontrou o mais antigo e maior cemitério monumental do Leste da África. Datado em cerca de 5 mil anos, o local, no sítio arqueológico designada Pilar Norte de Lothagam, teria sido estabelecido como local comum para enterros de uma sociedade igualitária – isto é, sem estratificação social – formada por antigos pastores que viviam no entorno do Lago Turkana, no Quênia.
Segundo os especialistas, a descoberta do cemitério comunitário contraria noções sobre antigas sociedades complexas que sugerem que uma estrutura social estratificada e definida seria necessária para promover a realização de grandes projetos “públicos”, como a construção de monumentos.
O sítio do Pilar Norte de Lothagam teria sido usado pela sociedade de pastores por vários séculos entre 5 mil e 4,3 mil anos atrás. Primeiro eles teriam construído uma plataforma com cerca de 30 metros de diâmetro, escavando uma cavidade em seu centro para enterrar seus mortos. Depois que a cavidade foi lotada, ela foi preenchida com terra e marcada com pedras, com seus construtores colocando enormes pilares monolíticos sobre o local, alguns deles trazidos de uma distância de mais de um quilômetro. Outros círculos de pedras e marcações foram acrescentados em seu entorno.
Os cientistas estimam que ao menos 580 indivíduos, entre idosos, homens, mulheres e crianças de diferentes idades foram enterrados na plataforma central do sítio. Nenhum dos funerais traz qualquer marcação especial, e praticamente todos indivíduos foram sepultados com ornamentos pessoais, com sua distribuição muito homogênea no sítio. Ainda de acordo com os especialistas, tais fatores indicam se tratar de uma sociedade relativamente igualitária, sem grandes estratificações sociais entre seus membros.
Os arqueólogos teorizam que os povos antigos construíam monumentos permanentes como lembrança de uma História, ideais e culturas comuns após estabelecerem uma sociedade agrária estável, socialmente estratificada, com recursos abundantes e uma liderança forte. Assim, acredita-se que tanto uma estrutura política quanto especialização no uso de recursos seriam pré-requisitos para a construção de monumentos, com construções antigas sinalizando a existência de sociedades complexas com classes sociais bem definidas. Mas o cemitério de Lothagam parece ter sido construído por uma sociedade de pastores nômades sem evidências de uma rígida hierarquia social.
- Esta descoberta desafia as antigas ideias sobre monumentos – explica Elizabeth Sawchuk, pesquisadora da Universidade Stony Brook, nos EUA, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha, e uma das autoras de artigo sobre a descoberta, publicado nesta segunda-feira no periódico científico “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS). - Sem outras evidências, o sítio de Lothagam nos dá um exemplo de monumentalismo que não pode ser demonstradamente ligado ao surgimento de uma hierarquia social, forçando-nos a considerar outras narrativas para as mudanças sociais.
Os especialistas destacam que a descoberta do cemitério no Lago Turkana é consistente com outros exemplos do tipo vistos na África e outros continentes, em que estruturas monumentais foram construídas por grupos que acredita-se terem sido igualitários em sua organização social. Diante disso, eles dizem que a pesquisa tem o potencial de reformular as perspectivas globais de como - e porquê – grandes grupos de pessoas se unem para formar sociedades complexas.
No caso do cemitério, parece que o sítio de Lothagam foi construído em um período de grandes mudanças sociais. O pastoreio tinha acabo de ser introduzido na Bacia de Turkana, e os novatos, com suas ovelhas, bodes e gado, encontraram grupos diversos de caçadores-pescadores-coletores já vivendo no entorno do lago. Além disso, tanto os novos habitantes quanto os antigos enfrentaram duras condições ambientais, com a precipitação caindo no período e a superfície do lago encolhendo em até 50%. Desta forma, os pastores teriam construído o cemitério como um lugar de reunião de forma a manter suas redes sociais para melhor enfrentar as mudanças econômicas e ambientais da época.

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