
12/07/2018
A identificação de ossos de baleias em sítios arqueológicos no Estreito de Gibraltar sugere que os romanos, há cerca de 2 mil anos, possuíam uma pujante indústria baleeira. Até então, acreditava-se que o povo basco fora o pioneiro na exploração comercial deste animal, a partir do século XI. A descoberta também indica que, no passado, o Mar Mediterrâneo era lar para duas espécies desses cetáceos que, hoje, não mais habitam o Atlântico Norte.
O estudo, publicado esta semana no periódico “Proceedings of the Royal Society of London B”, examinou dez ossos coletados recentemente em sítios arqueológicos ou armazenados em coleções de museus. Eles foram encontrados em cinco locais diferentes no Estreito de Gibraltar e num sítio na costa noroeste da Espanha, sendo três ligados à indústria de processamento de pescado no período romano.
Combinando a análise anatômica, que sugeria que os ossos eram de baleias, com novas análises de DNA e de colágeno — uma proteína que diferente entre as espécies e se degrada mais lentamente que o DNA —, os pesquisadores identificaram que um dos ossos era de golfinho e outro, de elefante. Mas três ossos foram identificados como sendo de baleias cinzentas e outros dois, de baleias francas do Atlântico Norte. Os outros ossos ficaram sem identificação.
Por datação de carbono, os cientistas concluíram que os ossos eram dos períodos pré-romano e romano, coincidindo a datação baseada em informações coletadas nos sítios arqueológicos.
— Nosso estudo sugere que essas duas espécies já fizeram parte do ecossistema marinho do Mediterrâneo e provavelmente usavam a bacia abrigada como área de reprodução — destacou Camilla Speller, pesquisadora da Universidade de York e coautora do estudo. — As descobertas contribuem para o debate se, além da captura de grandes peixes como o atum, os romanos tinham uma indústria baleeira ou, talvez, os ossos são evidência de aproveitamento oportunista de baleias encalhadas na costa.
Como as duas espécies são migratórias, sua presença no Estreito de Gibraltar sugere que, no passado, elas entravam no Mar Mediterrâneo para dar à luz e cuidar dos filhotes. Hoje, apenas as baleias fin e cachalote são encontradas no Mediterrâneo. Mas como elas vivem em regiões de águas profundas, não eram ameaçadas por povos do passado por falta de tecnologia.
— Os romanos não tinham a tecnologia necessária para capturar as espécies de grandes baleias encontradas hoje no Mediterrâneo — explicou Ana Rodrigues, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. — Mas a franca e a cinzenta, com seus filhotes, deviam se aproximar bastante da costa, se tornando alvos tentadores para os pescadores.
É possível que as baleias tenham sido caçadas com pequenos barcos e arpões de mão, métodos usados pelos bascos séculos depois. A região do Estreito de Gibraltar era o centro de uma imensa indústria de processamento de peixes no período romano, com os produtos salgados sendo exportados para todo o império. Ruínas de centenas de fábricas, com grandes tanques de salgamento, podem ser vistos ainda hoje.
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