
10/07/2018
O programa brasileiro de redução do desmatamento já serviu de exemplo para o mundo, mas a crise política instalada em Brasília nos últimos anos coloca os ganhos ambientais em risco e ameaça outros setores da economia nacional, alerta artigo publicado nesta segunda-feira na revista “Nature Climate Change”. Em troca de apoio político, dizem os pesquisadores, o governo está “sinalizando aos donos de terras para aumentarem o desflorestamento”, com a aprovação de medidas que reduzem as exigências para o licenciamento ambiental e suspendem a demarcação de terras indígenas, por exemplo. E para compensar as emissões de gases-estufa provocadas pela perda de cobertura florestal, os custos para o país cumprir acordos internacionais serão multiplicados.
— Combater o desmatamento é a forma mais barata de conter as emissões, sem contar os ganhos ambientais — ressalta André Lucena, professor do Programa de Planejamento Energética da Coppe/UFRJ e coautor do artigo. — O Brasil tem uma meta de redução das emissões de gases-estufa. Se o desmatamento aumentar, outros setores da economia terão que compensar com esforços de redução maiores e mais custosos.
O Brasil, sétimo maior emissor de gases do efeito estufa, conseguiu cortar as emissões em 54% entre 2005 e 2012, sobretudo pela redução em 78% no desmatamento. A aprovação do novo Código Florestal, em 2012, foi o primeiro baque à exitosa política ambiental: o ano seguinte já registrou um aumento na área desmatada. Com a ascensão de Michel Temer, em maio de 2016, “a presidência do Brasil aprofundou esta reversão tentando desconstruir várias políticas ambientais bem-sucedidas”.
Chama atenção, destaca Lucena, o peso da bancada ruralista, que controla cerca de 40% das cadeiras no Congresso, apesar de 80% da população viver em centros urbanos. E com essa força, deputados e senadores ligados ao agronegócio conseguem pressionar por medidas que priorizem a produção, muitas vezes, em detrimento de políticas ambientais.
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