
03/07/2018
As emissões de carbono pela Humanidade precisam chegar a zero - ou mesmo entrar no campo negativo, com a remoção de gases do efeito estufa da atmosfera – se o mundo quiser evitar que o aquecimento global ultrapasse os dois graus Celsius até o fim do século, com consequências potencialmente catastróficas para o clima. Mas enquanto alguns setores, como transporte urbano, iluminação e consumo doméstico de eletricidade, já têm caminhos aparentemente diretos rumo à chamada “descarbonização” no curto a médio prazos, como veículos elétricos, no primeiro caso, ou uso de fontes limpas de energia, como solar e eólica, no segundo, outras áreas se mostram “ossos duros de roer” nesta direção.
E foi justamente para identificar destas áreas – notadamente viagens aéreas, transporte de cargas de longa distância por caminhões, trens e navios e fabricação de aço e cimento, além das chamadas usinas de acompanhamento de carga, acionadas para suprir aumentos temporários na demanda por eletricidade, e geralmente movidas a gás ou carvão – e buscar alternativas de redução ou compensação das emissões nelas que um grupo de especialistas liderado por Steven Davis, da Universidade da Califórnia em Irvine, EUA, e Ken Caldeira, do Instituto Carnegie para a Ciência, também nos EUA, realizou estudo publicado nesta quiinta-feira na revista “Science”, primeiro de uma série especial intitulada “A Terra do amanhã” que seguirá até o fim do ano.
De acordo com o levantamento, só estes setores lançaram cerca de 9,2 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera da Terra em 2014, ou 27% das emissões globais naquele ano. Proporção que deve subir ainda mais diante da expectativa de aumento da demanda por estes serviços, expansão do comércio internacional e construção de infraestrutura, em especial nos países pobres e em desenvolvimento.
- Juntas, estas fontes “duras de roer” respondem por uma fração substancial das emissões globais - destaca Ken Caldeira, do Instituto Carnegie para a Ciência, EUA, e um dos líderes da pesquisa. - Então, para efetivamente lidar com elas, precisaremos desenvolver novos processo e sistemas, o que vai requerer tanto novas tecnologias quanto a coordenação e integração entre as diferentes indústrias.
Assim, entre as opções apontadas estão o uso de combustíveis baseados em hidrogênio e amônia no transporte de cargas e aviação, bem como o desenvolvimento de novas tecnologias para os fornos das indústrias de aço e cimento e métodos para armazenamento e aproveitamento do carbono emitido por elas - inclusive na produção dos citados combustíveis de amônia -, num ciclo sustentável de geração e consumo de energia que também deve incluir novas formas de guardar eletricidade ou o potencial de sua geração via baterias ou outras tecnologias.
Não temos uma bola de cristal para prever que tecnologias vão existir daqui a um século – ressalta Caldeira. - Mas sabemos que as pessoas vão continuar a querer prédios, transporte e outros serviços providos pela energia, então temos que desenhar nosso sistema de energia de forma que ele possa tirar vantagens das novas invenções à medida que surgirem.
Fonte: O Globo
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