
19/06/2018
A geração solar ainda tem pouca participação na matriz energética global, mas, de acordo com o último relatório da Agência Internacional de Energia, o segmento é o que mais adiciona capacidade de geração em todo o mundo. Para impulsionar ainda mais o setor, novas tecnologias estão sendo testadas para ampliar sua adoção em áreas urbanas, com soluções de maior apelo estético que os módulos fotovoltaicos tradicionais. Na China, o asfalto das estradas está sendo substituído por piso que capta a luz solar para gerar energia, enquanto o Brasil lidera a produção de um painel leve e flexível, que pode ser incorporado à arquitetura de forma tão simples quanto uma película de vidro.
— A ideia de se produzir energia nas cidades, próxima aos centros consumidores, evita perdas de carga por transmissão, torna o consumidor produtor da sua própria energia e conscientiza-o quanto ao seu consumo de energia — argumenta Mariana Padilha C. Lopes, doutoranda do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, ressaltando que o custo em relação às placas tradicionais ainda é um impedimento para a ampla adoção. — Com a maior aplicação das tecnologias nas cidades, o preço tende a ser reduzido.
O bilionário Elon Musk, considerado o gênio da indústria de tecnologia, é um dos que apostam nesta abordagem. Em março, a Tesla, uma das companhias fundadas por ele, começou a comercializar o Solar Roof, uma telha que funciona como painel solar. Disponível em quatro modelos, elas são idênticas às telhas comuns quando vistas da rua, mas produzem energia. O custo de instalação ainda é o dobro das placas tradicionais, mas mesmo assim a companhia enfrenta dificuldades para responder à demanda, com lista de espera que demora meses.
Na China, o trecho de um quilômetro de uma rodovia de pista dupla em Jinan, na província de Shandong, teve o asfalto substituído por placas solares recobertas por um polímero transparente, capaz de suportar o peso e o atrito de carros e caminhões. Com área de 5.875 metros quadrados, a estrada elétrica gera energia suficiente para abastecer 800 residências. A iniciativa da Shandong Pavenergy segue experimentos realizados pela francesa Colas em 25 estradas e estacionamentos na França, no Canadá, no Japão e nos EUA, mas ambas padecem do mesmo problema: o custo.
O recapeamento e a manutenção de uma estrada de asfalto custa cerca de US$ 120 o metro quadrado por década. O preço previsto para a estrada solar, considerando a produção em massa, fica entre US$ 310 e US$ 460, segundo cálculos do “New York Times”. Mesmo considerando a energia produzida, a tecnologia levaria mais de 15 anos para se pagar. Por outro lado, a aplicação dos painéis solares traz ares de modernidade, podendo integrar lâmpadas LED para sinalização e, no futuro, oferecer carregamento automático para as baterias de carros elétricos.
As estradas solares ainda têm a vantagem de utilizar áreas já construídas para a geração de energia limpa, ajudando no combate às emissões de gases-estufa. Essa capacidade de se adaptar ou substituir construções já existentes é o principal atrativo dos chamados fotovoltaicos orgânicos (OPV, na sigla em inglês). Francisco Veloso, diretor da área de Performance Materials da Merck, uma das companhias que produz o material, explica que o composto químico se parece com uma tinta, e é aplicado sobre painéis flexíveis da mesma forma que as impressões em gráficas.
— Por serem flexíveis, transparentes e moldáveis, há um leque de possibilidades para a aplicação desses painéis — comentou Veloso. — Eles podem ser incorporados à arquitetura, em fachadas de prédios e no mobiliário urbano, como em pontos de ônibus, por exemplo. E também têm um apelo para a mobilidade, podendo ser incorporados a uma mochila ou à capinha do celular.
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