
05/06/2018
Vaqueiro desde que a memória alcança, Virgílio José da Rocha, de 74 anos, recebeu com alívio a volta da chuva no verão que passou. Mas ela não foi suficiente para renovar a esperança de que a Caatinga se recupere da pior seca em um século, iniciada em 2012 e só interrompida em 2018. A seca matou quase todo o gado bravo que vaqueiros como ele passam a vida a domar. Mas ele sabe que perdeu muito mais do que o gado. Seu Virgílio vive na transição de dois mundos, no sopé das Serra das Traíras, na zona rural de Sobradinho, na Bahia. De sua casa, vê da janela um microcosmo do que sobrou do único bioma totalmente brasileiro, e também o mais desprotegido e desprezado.
Mesmo tendo perdido 46% de sua cobertura original, a Caatinga é maior, mais desconhecida e complexa do que se imaginava. Descobriu-se que ocupa 912.529 quilômetros quadrados, ou 10,7% do território brasileiro - 86 mil a mais do que os dados do IBGE indicam. O mesmo que a área somada de Itália, Alemanha e Reino Unido. O aumento se deve à inclusão de florestas do Médio São Francisco, que não eram bem estudadas e tinham sido classificadas como Cerrado, explica Marcelo Tabarelli, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco. O número de espécies de plantas subiu de 930 para 3.150.
Os dados estão na obra “Caatinga - The Largest Tropical Dry Forest Region in South America” (Caatinga - A maior floresta tropical seca na América do Sul, em tradução livre), recém-lançada nos EUA pela Springer. Organizado por Tabarelli, Inara Leal e José Maria Cardoso da Silva, é o mais completo levantamento ambiental, social e econômico sobre o bioma.
Em Traíras, a 34 quilômetros do Rio São Francisco, acontece o encontro das caatingas. Lá estão as terras baixas, onde os arbustos, como moleques-duros, carquejas e quebras-facão, morreram quase todos e até os mandacarus murcharam. Essas terras se encontram com as serras cobertas por florestas de angicos, caraíbas e umburanas do Boqueirão da Onça, um dos últimos redutos das caatingas selvagens. O Boqueirão abriga as florestas de caatingas altas, um dos ecossistemas mais raros do Brasil, parte do qual foi transformado em parque nacional este ano. Ainda assim, só cerca de 3% do bioma contam com proteção integral.
- Dá vontade de chorar. A caatinga baixa se foi quase toda. Mas as árvores grandes também morreram. Até os umbuzeiros, que eram tão comuns, estão raros. E não há coisa tão linda quanto o umbuzeiro, que serve para tudo, do fruto à raiz. Sem a Caatinga nada existe - diz Virgílio, que hoje vive da aposentadoria rural com a mulher Rosa Rocha, de 69 anos. Água, só a trazida pelo carro-pipa.
O casal teve 17 filhos, 13 dos quais sobreviveram e se criaram “no cabo da enxada”, diz dona Rosa.
- Nenhum virou ladrão ou criminoso. Nosso ruim é só ser pobre - afirma ela.
A matéria pode ser lida em O Globo
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