
10/04/2018
Com caminhões, escavadeiras e até uniformes idênticos aos da prefeitura, milícias estão expandindo, de forma ilegal, as áreas urbanas do Rio. Investigações da Secretaria de Segurança, das polícias Civil e Federal e do Ministério Público fluminense revelam que o mercado habitacional é o mais novo segmento explorado por essas organizações criminosas. Inquéritos mostram que há milicianos envolvidos em grilagem, remoções, obras e até corretagem imobiliária. Diante da falta de terrenos para construção em vários bairros da Zona Oeste, as quadrilhas avançam sobre áreas de proteção ambiental, que são desmatadas para abertura de loteamentos ou usadas para extração de pedra e saibro.
Além dos lucros obtidos com a venda e o aluguel de imóveis irregulares, as novas ocupações proporcionam um crescimento das atividades que rendem uma fortuna para as milícias, como cobrança de taxas de proteção, oferta de sinal clandestino de TV a cabo, venda de botijões de gás e exploração do transporte alternativo. A expansão imobiliária impulsionada pelas quadrilhas é vista, por exemplo, nos arredores de Rio das Pedras, a primeira comunidade carioca controlada por um grupo paramilitar.
Com cerca de 80 mil habitantes, de acordo com o Instituto Pereira Passos — a associação local de moradores calcula que são 140 mil —, Rio das Pedras não tem mais como crescer. Não há mais terrenos desocupados na comunidade. Mas, em localidades de seu entorno, como a Muzema, a profusão de placas de venda e aluguel de imóveis, muitos com padrão de edifícios de quatro andares da Barra, deixa qualquer um zonzo diante de tantas ofertas.
Dez anos depois da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do estado, a expansão dos negócios ilegais prova que, em vez de recuarem, esses grupos estão diversificando suas atividades. Nos últimos anos, as quadrilhas passaram a praticar crimes que vão do furto do óleo que passa em tubulações da Petrobras à receptação e à comercialização de mercadorias roubadas, mesmo que, para isso, tenham de se associar a traficantes.
Sem limites, milicianos aterraram Rio das Pedras e Muzema, áreas do entorno da Lagoa de Marapendi que eram protegidas. Tocadas em terrenos de turfa — que, segundo o biólogo Mário Moscatelli, dificulta a decomposição do material orgânico devido à saturação por água —, as obras deveriam contar com um estaqueamento profundo, algo que raramente é feito. Desrespeitando a legislação sobre o uso do solo, as edificações também ultrapassam o gabarito da região.
— Fazendo sobrevoos, vejo construções em áreas de proteção ambiental. Elas tomam as margens das lagoas e os manguezais. São regiões inundáveis. As pessoas que compram ou alugam imóveis ali têm uma bomba-relógio sob os pés. Em algum momento, tudo ficará cheio d’água, isso sem contar com a inalação de gases sulfídrico e metano, que fazem mal à saúde — alerta Moscatelli.
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