
27/03/2018
O fundo quase seco de açudes e reservatórios do Nordeste não traz só desespero. Traz doença. Cientistas descobriram micro-organismos e toxinas capazes de causar malformações e distúrbios no fígado e no sistema nervoso em água coletada no auge da seca histórica que assola o semiárido desde 2012. O estudo foi realizado na Paraíba, mas os pesquisadores alertam para o risco de a mesma situação ocorrer em outros estados.
“Ocorrência de cianobactérias perigosas na água potável de uma região severamente impactada pela seca na região semiárida” é o título autoexplicativo do estudo, publicado este mês no respeitado periódico “Frontiers in Microbiology”. Os pesquisadores — de Rio de Janeiro, Paraíba e São Paulo — coletaram água de cinco açudes. Todos na região metropolitana de Campina Grande, na Paraíba. O maior deles, Boqueirão, fornece água para cerca de 1 milhão de pessoas em 19 municípios do sertão. A coleta foi realizada entre setembro e outubro de 2016, num dos piores períodos da seca. Boqueirão chegou a menos de 3% de seu volume na ocasião.
— Encontramos nessa água concentração alarmante de cianobactérias e das toxinas que elas produzem. Isso torna a água imprestável para consumo humano. Testamos a água em embriões de peixes e 60% deles morreram. Houve uma incidência de 60% de malformações. Deformações no coração, na coluna, na pigmentação, na boca. Danos no fígado e complicações neurológicas. É um alerta de que a água precisa de monitoramento, principalmente nos períodos secos ou quando há muita poluição. O tratamento convencional não elimina as cianobactérias e as toxinas, presentes no esgoto — explica o coordenador do estudo, Fabiano Thompson, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Peixe não é gente, mas seus embriões são considerados um bom modelo para testar a toxicidade das cianobactérias. “Eles são um indicador do que pode acontecer”, observa o cientista. As cianobactérias são micro-organismos que proliferam com o calor em água rica em nutrientes, como fósforo. Os nutrientes vêm do esgoto lançado nos reservatórios. Com a seca, o volume de água diminui e os nutrientes ficam concentrados. O fundo dos açudes se transforma numa sopa tóxica de característico tom azulado, resultado da proliferação das cianobactérias. Hoje, com as chuvas e a água da transposição do São Francisco, há um pouco mais de água no Boqueirão, que está com 16,61% de sua capacidade. Mas água de má qualidade é um problema crônico e não só na Paraíba , destaca Thompson.
A matéria pode ser lida em O Globo
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