
20/03/2018
O sangramento foi imenso.
“Mas como foi que aconteceu, doutor?”.
Essa era também a pergunta que toda a equipe se fazia. Fora uma cirurgia de rotina, com a alta hospitalar prevista para o dia seguinte, mas que expôs o paciente a enormes riscos, a uma prolongada internação e alto custo hospitalar. Com um problema vascular, ele utilizava corretamente um anticoagulante prescrito, mas se automedicava com Ginkgo biloba (para tratar “problemas de memória”). Essa erva tem propriedades anticoagulantes, além de poder levar a convulsões quando associada a certos medicamentos e aumentar a toxicidade de alguns outros utilizados no tratamento da Aids.
Esse não foi um caso isolado. É um problema mundial. Um tremendo equívoco ao se justificar o uso dessas drogas (com duplo sentido) — “Se não fizer bem, mal não faz”.
Esse é um mercado de bilhões de dólares. Estudos apontam que 30% das pessoas entre 25 e 49 anos de idade, em geral com boas condições socioeconômicas e de escolaridade, fazem uso de medicação não convencional, principalmente os portadores de câncer, doença cardiovascular, diabetes e transtornos emocionais. Três em cada quatro desses pacientes não informam isso espontaneamente, porém, se diretamente questionados pelo médico, quase metade deles confirma esse uso nos 12 meses anteriores à consulta. Em geral, a “prescrição” foi feita por amigos, familiares ou pela “propaganda”, havendo preferência pelos produtos importados (“da melhor qualidade”).
Essas drogas são substâncias químicas ou biológicas que interagem entre si e com medicamentos tradicionais, aumentando, diminuindo ou modificando suas ações. O uso de dois ou mais desses produtos pode elevar o risco de complicações em três vezes. As ervas em particular, por sua grande heterogeneidade, podem ter conservantes, pesticidas, minerais e produtos animais. Além disso, existem inúmeras plantas semelhantes, mas com composições totalmente diferentes.
Uma recente publicação no Journal of Clinical Pharmacology aponta os potenciais problemas, em especial com o uso de Ginkgo biloba, chá verde e ginseng, populares no Brasil.
Apesar de haver legislação do Ministério da Saúde, desde 1981, sobre o uso de fitoterápicos e de termos excelentes centros de pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos utilizando nossa enorme biodiversidade, a pesquisadora Daniella Silva, em sua tese na Farmanguinhos em 2013, apurou que apenas um terço das embalagens de Ginkgo biloba comercializadas legalmente no Rio de Janeiro tinham rotulagem correta.
Fica então o conselho: sempre converse com seu médico, pois produtos naturais também podem fazer mal.
Fonte: O Globo
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