
20/03/2018
Para desenvolver tecnologias que melhorem a quantidade e a qualidade de água disponível no mundo, é necessário olhar para as práticas de comunidades indígenas e tradicionais. É o que aponta um relatório divulgado nesta segunda-feira pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). As Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são as mais eficazes e mais baratas, defende o texto. São técnicas que usam ou imitam processos que acontecem na natureza, como a criação de reservas de água em mangues e proteção das áreas alagadas, no lugar de grandes reservas de concreto; ou a restauração do funcionamento natural do solo, em vez do uso de produtos químicos para manter a produção.
Na Índia, por exemplo, mulheres resgataram o uso de estruturas de colheita de água em pequena escala e trouxeram de volta a água para mil aldeias afetadas pela seca. Na Jordânia, práticas tradicionais conhecidas como “hima” — que, basicamente, consistem em deixar a terra “descansar” após uma colheita — ajudaram a recuperar a saúde da bacia do rio Zarqa, onde vive metade da população do país.
No documento, o diretor da UN Water, setor da organização que debate sobre acesso a água, Gilbert Hougbo, afirma que é hora de mudar a forma de fazer tecnologias de gestão hídrica:
— Por muito tempo, o mundo tem se transformado em um lugar onde as melhorias para a gestão hídrica são baseadas primariamente nas infraestruturas construídas pelo ser humano, conhecidas como “infraestruturas cinzas”. Com isso, conhecimentos tradicionais e indígenas, que abrangem soluções mais “verdes”, são constantemente deixados de lado.
Uma iniciativa brasileira citada como exemplo foi o programa “Cultivando a água”, realizado no entorno da usina hidrelétrica de Itaipu. Sedimentos que entram no reservatório reduziam a capacidade de armazenamento de água e encurtavam a vida útil da usina, aumentando os custos de manutenção e, portanto, da geração de eletricidade. O projeto envolveu fazendeiros dos arredores para que mudassem suas formas de plantio e até mesmo o tipo de vegetal cultivado, de forma a preservar maior proporção de água no solo, para que os sedimentos não fossem carregados pelos rios. O Oficial de Programas da área de Ciências Naturais da Unesco no Brasil, Massimiliano Lombardo, explica a ação:
— Uma série de iniciativas foi tomada, sendo a maioria soluções baseadas na natureza, como o plantio de espécies nativas em áreas desmatadas ou degradadas. Houve restauração de matas ciliares (vegetação que fica nas margens de rios) e também a recuperação de nascentes. Itaipu tem, além da usina hidrelétrica, área alagada e o parque de Iguaçu. Há um movimento que envolve desde as comunidades locais até as indústrias privadas, como a própria Itaipu, que promovem essa boa gestão da água. Esse é um exemplo importante, porque mostra que o ser humano pode, de fato, trabalhar em parceira com a natureza.
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