
20/03/2018
Uma imensa região escura, inóspita, repleta de riquezas e habitantes desconhecidos, cuja exploração será feita por robôs. Parece a descrição de um planeta. São, na verdade, as profundezas do Oceano Atlântico Sul. Ao contrário de sua porção Norte, que banha o litoral de países desenvolvidos, ele conta com poucos sensores e há diversas lacunas em seus dados históricos. Para suprir informações básicas, como a dispersão de poluentes e a biodiversidade ali presente, diversas nações, entre elas o Brasil, criaram o Centro Internacional de Pesquisa do Atlântico (AIR Center).
Cientistas envolvidos com a instituição estão organizando uma série de reuniões para definir quais pesquisas terão prioridade. Um dos encontros preliminares aconteceu no mês passado, no Rio. Em maio, outro debate em Cabo Verde definirá que equipes serão responsáveis pelos levantamentos de cada área e como será a cooperação entre os grupos. Até países distantes do oceano, como China, Índia e Rússia, acompanharão os trabalhos, cientes de que as descobertas podem trazer novas oportunidades de negócios.
Um dos idealizadores do projeto, Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, destaca que os satélites são cada vez mais baratos e têm melhor resolução. Por isso, devem contribuir para a realização de pesquisas nos países em desenvolvimento:
— Não se pode pensar em uma estratégia de desenvolvimento sem considerar o Atlântico Sul, que tem sido sistematicamente desvalorizado — ressalta. — Podemos construir observatórios em ilhas como Cabo Verde e Fernando de Noronha e usar a tecnologia oceânica para elaborar estudos. Um dos principais tópicos é como os resíduos despejados no oceano podem afetar a alimentação dos animais marinhos e a biodiversidade.
Coordenador do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da Coppe/UFRJ, Luiz Landau sublinha que o Brasil não tem muita noção sobre como é o assoalho do oceano, apesar de explorar o pré-sal a 300 quilômetros de distância da costa.
— Se não conhecemos o oceano que está tão próximo a nós, estamos fadados a cometer erros de planejamento e operação — alerta. — Antes de explorar as riquezas do oceano, precisamos saber qual será o impacto de cada intervenção. Às vezes podemos provocar um dano ambiental irrecuperável ou que demore décadas até ser contido.
Para Landau, algumas obras promovidas no litoral não seriam feitas se houvesse mais dados sobre o mar. É o caso de desvio de rios e mudança nos bancos de areia de praias.
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