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Estudos ligam mudanças climáticas na África à evolução dos humanos modernos

20/03/2018

Três artigos científicos interligados publicados nesta quinta-feira na revista “Science” relacionam mudanças climáticas e ambientais ocorridas no Leste da África a partir de cerca de 800 mil anos atrás a alterações nos padrões de comportamento e o desenvolvimento de novas tecnologias por grupos de hominídeos caçadores-coletores que habitavam a região, em especial desde 320 mil anos atrás, época que logo precedeu ou coincidiu com o surgimento dos humanos modernos (Homo sapiens). Os achados reforçam a noção de que a evolução de nossa espécie foi altamente influenciada por modificações no ambiente deflagradas por um período de grande variabilidade climática na área que se acredita ter sido o “berço da Humanidade”.
Segundo os pesquisadores, análises dos sedimentos encontrados na Bacia de Olorgesailie, no Quênia, mostram que há aproximadamente 800 mil anos a região começou a experimentar flutuações entre climas úmidos e secos que transformaram a área, antes tomada na maior parte por planícies inundadas e várzeas, numa vasta savana. Com isso, a fauna mamífera também sofreu grandes transformações, com os registros fósseis apontando a extinção de espécies pastejadoras de grande porte de animais relacionados aos atuais elefantes, alces, equinos e bovinos, e sua substituição por "versões" menores delas, o que os pesquisadores dizem ser mais um sinal da enorme instabilidade climática que atingiu a região ao longo de dezenas de milhares de anos.
Além disso, escavações arqueológicas em Olorgesailie trouxeram à tona os mais antigos exemplares conhecidos de ferramentas com características da chamada Média Idade da Pedra, mais “avançadas” que as de épocas anteriores. Alguns destes artefatos também foram feitos com materiais não disponíveis na área que eram inclusive estocados na sua forma bruta, numa indicação tanto de uma maior mobilidade dos grupos de caçadores-coletores — forçados a ir mais longe ou mudarem seus acampamentos com maior frequência para buscar comida em tempos de crescente insegurança alimentar devido à instabilidade climática e suas consequências ambientais —, quanto de uma ampliação das redes de relação e comércio entre os diferentes grupos que lá habitavam. Por fim, os cientistas ainda encontraram evidências da fabricação e uso de pigmentos e corantes por estes grupos, sinais de desenvolvimento de uma cultura simbólica relativamente sofisticada.
— Esta mudança para um conjunto de comportamentos muito sofisticados que envolviam maiores habilidade mentais e vidas sociais mais complexas talvez tenha sido a ponta de lança que distinguiu nossa linhagem de outros humanos arcaicos — resume Rick Potts, diretor do Programa de Origens Humanas do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, nos EUA, que há mais de 30 anos lidera estudos em Olorgesailie em parceria com museus quenianos e é principal autor de um dos artigos publicados ontem na “Science”.
A ocupação humana da região de Olorgesailie remonta em cerca de 1,2 milhão de anos, evidenciada por fósseis de Homo erectus, uma espécie arcaica de hominídeo, lá encontrados anteriormente. Os registros arqueológicos mostram ainda que ao longo de centenas de milhares de anos os habitantes da área fabricavam e usavam grandes ferramentas de pedra, como machados primitivos. Mas, a partir de 2002, Potts e sua equipe começaram a desencavar uma grande variedade de artefatos menores e melhor trabalhados que estes machados de uso genérico. Entre eles estavam pontas afiadas que poderiam ser encaixadas em hastes e usadas como armas de lançamento e outros com formato de raspadeiras e cinzéis, datados de entre 320 mil e 305 mil anos atrás, pelo menos 20 mil anos mais velhos que os que até então eram os mais antigos exemplares de tecnologia da Média Idade da Pedra já encontrados.

Leia a matéria em O Globo

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