
01/03/2018
Assim como os morcegos e alguns mamíferos marinhos, os humanos são capazes de usar o som para coletar informações espaciais sobre o ambiente. O recurso, conhecido como ecolocalização, permite que pessoas com deficiência visual compensem a falta do sentido para “enxergar” com a audição. E com precisão. Segundo estudo publicado nesta quarta-feira no periódico “Proceedings of the Royal Society B”, oito especialistas na técnica conseguiram detectar, com 100% de acerto, a localização de um objeto circular colocado a um metro de distância em ângulos de 0º, 45º e 90º.
No entanto, revela o estudo, quando o mesmo disco refletor com 17,5 centímetros de diâmetro foi colocado em ângulos obtusos em relação aos participantes, o índice de acerto caiu. A 135º, a taxa de precisão foi de 80% e, quando colocado a um ângulo de 180º, atrás dos voluntários, os acertos foram de 50%, o mesmo índice de palpites aleatórios. A neurocientista Lore Thaler, da Universidade Durham e líder da pesquisa, explicou que os especialistas em ecolocalização foram colocados no centro de uma sala e mantiveram a cabeça na mesma posição. Então, eles tinham que responder se o disco estava ou não colocado ao seu redor, em ângulos de 0º, 45º, 90º, 135º e 180º.
— Do ponto de vista científico, está estabelecido que as pessoas podem fazer isso — disse Lore.
Para identificar o objeto, os ecolocalizadores fazem “cliques” com a boca e são capazes de coletar informações pelo retorno do som. Os resultados revelaram que quando o disco foi posto à frente ou ao lado, em ângulo de 90º, os participantes conseguiam identificá-lo facilmente, com apenas um ou dois cliques. Mas quando o disco era colocado atrás da linha do ouvido, eles emitiam entre dez e 12 cliques e com maior intensidade.
— A energia do clique vai para a frente da pessoa, com muito pouco indo para trás — explicou Lore, à BBC. — Então eu acredito que elas estão compensando, ou fazendo uma segunda checagem, enviando mais sons para trás delas.
O estudo comprova que, da mesma forma que os morcegos, os humanos que fazem uso da ecolocalização ajustam a emissão de cliques de acordo com as demandas da situação e que os cliques mais fortes retornam mais informações sobre o ambiente. Outros estudos recentes mostraram que a ecolocalização é capaz de identicar detalhes dos objetos, como formato, tamanho, distância e até mesmo o material.
Em entrevista recente ao GLOBO, Daniel Kish, especialista em ecolocalização e um dos voluntários da pesquisa, contou que qualquer pessoa pode aprender a técnica, “como se aprende uma nova língua ou um instrumento musical”. Cego desde a infância, Daniel desenvolveu sozinho a sua própria técnica e hoje, aos 51 anos, é capaz de realizar tarefas consideradas difíceis para pessoas com deficiência visual, como andar de bicicleta e fazer trilhas.
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