
08/02/2018
Em que condições a monogamia, como estratégia de reprodução, é evolutivamente mais vantajosa do que a poligamia? A causa por trás do aparecimento da monogamia como forma de acasalamento sempre gerou intenso debate no meio científico. Extremamente rara em mamíferos, compreendendo apenas 3% das espécies, a monogamia tem levado cientistas a propor diversas formas de explicar em que condições ter apenas um parceiro sexual aumenta o sucesso reprodutivo do indivíduo.
Em um artigo publicado na última terça-feira, dia 6, na revista internacional "Scientific Reports", quatro pesquisadores brasileiros desenvolveram um modelo computacional para testar um conjunto de hipóteses que simulariam comportamentos animais e que permitiriam avaliar, em determinadas situações, qual estratégia de reprodução — poligâmica ou monogâmica — apresentaria maior sucesso.
Os pesquisadores concluíram que a monogamia é uma estratégia melhor do que a poligamia em três circunstâncias: quando há poucas fêmeas disponíveis em relação a machos; quando o período fértil das fêmeas é curto; e quando a distância geográfica entre cada fêmea é grande.
— Se as fêmeas de determinada espécie têm um período fértil grande, por exemplo, o macho tem mais chance de vagar pelo ambiente e copular com várias fêmeas. Isso favorece a poligamia. Já quando as fêmeas têm um período curto de fertilidade, a monogamia se torna uma estratégia mais vantajosa — explica um dos autores da pesquisa, Daniel Guimarães, que, assim como os outros três colegas, é doutorando em Ciências Morfológicas do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). — Do mesmo modo, quanto maior é o distanciamento de uma femea para outra, maior é o risco de o macho não conseguir encontrar uma fêmea para copular. E, como elas ficam distantes umas das outras, ele não consegue não consegue “marcar seu território”, formar um “curral de fêmeas”: enquanto sai em busca de uma, corre o risco de perder a anterior para outro macho.
Durante muito tempo, correntes científicas se chocaram porque cada uma defendia uma hipótese diferente para explicar a monogamia. Este trabalho, no entanto, mostra que não há uma única resposta para isso. Causas variadas podem ter levado diferentes espécies a escolherem essa forma de acasalamento.
— Diferentes espécies podem ter se tornado monogâmicas por influência de fatores distintos. Isso explica a dificuldade em achar uma única hipótese que explique tal fenômeno em todas as espécies — afirma Guimarães. — Existem várias respostas possíveis. Nosso estudo mostrou três. O modelo computacional que usamos revela que a proporção entre machos e fêmeas se mostrou uma razão mais robusta, mas outras variáveis também têm um papel importante.
São muito poucas as espécies de mamíferos que são monogâmigas. Entre elas, temos o arganaz do campo, um roedor comum na América do Norte, e o dik-dik, um antílope africano — cujas características teriam inspirado a animação "Bambi", da Disney.
A matéria pode ser lida em O Globo
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