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Mudanças climáticas estão fazendo os ursos polares passarem fome

06/02/2018

A sobrevivência dos ursos polares depende, em grande parte, das focas que conseguem caçar durante a primavera. Mas este petisco, rico em gorduras, não está sendo mais suficiente para aplacar a fome do maior predador terrestre. Por causa das mudanças no clima do Ártico, os ursos precisam percorrer maiores distâncias em busca de alimentos, aumentando as taxas metabólicas, fazendo com que muitos não consigam suprir suas necessidades energéticas.
Os pesquisadores monitoraram o comportamento, o sucesso na caça e as taxas metabólicas de nove fêmeas adultas sem filhotes entre abril e junho, o principal período de caça, no Mar de Beaufort, no Alasca. É durante esta época do ano que os ursos conseguem caçar mais, pois coincide com a época de nascimento das focas. Poucos meses depois, no outono, as focas estão mais velhas e atentas para escapar das investidas.
— Estima-se que os ursos caçam em média duas focas no outono, mas entre cinco ou dez durante a primavera e o início do verão — explicou Pagano.
Cada animal foi observado por um período que variou entre oito e 11 dias. Cinco dos ursos perderam massa corporal, isto é, não conseguiram consumir gordura suficiente para suprir suas necessidades energéticas. Em um dos animais a situação foi mais crítica: ele perdeu não apenas gordura como musculatura.
De acordo com os resultados, as taxas metabólicas destes animais em ambiente selvagem são, em média, cerca de 50% mais altas do que se imaginava. Estudos anteriores tentaram estimar a taxa metabólica e o gasto de energia baseados em premissas sobre o comportamento e a fisiologia desses ursos. Por exemplo, se pensava que a técnica de caça era baseada em “se sentar e esperar”, e isso minimizaria o gasto energético. Os pesquisadores também especulavam que os ursos polares poderiam reduzir suas taxas metabólicas para armazenar energia.
No estudo atual, Pagano e seus colegas mediram a taxa metabólica analisando amostras de sangue na captura e na recaptura, após um período que variou entre 8 e 11 dias. Além disso, os ursos foram equipados com colares GPS e tiveram suas atividades filmadas. Dos cinco ursos que perderam massa corporal, em quatro a perda foi superior a 10%, indicando perda média de 1% por dia.
— Nós descobrimos que os ursos polares, na verdade, têm demanda energética muito maior do que se previa — explicou Pagano. — Eles precisam caçar muitas focas.
Esse desbalanceamento energético é, ao menos em parte, culpa dos humanos. Por causa das mudanças climáticas, a cobertura de gelo sobre o Ártico estão se retraindo a uma taxa de 14% por década. E é exatamente sobre estas plataformas que os ursos caçam as focas. No Mar de Beufort, as placas de gelo sobre o mar começam a recuar em julho, forçando os ursos a migrarem para o norte. Com o aquecimento, o derretimento é mais acentuado, e os animais precisam percorrer distâncias maiores que no passado recente.
Em outras áreas, como na Baía Hudson, os ursos estão sendo forçados a passar mais tempo no continente, onde a alimentação é escassa. Com o aquecimento na região, as plataformas de gelo derretem mais cedo no verão e se retornam mais tarde no fim do outono.
O Serviço Geológico dos EUA monitora os ursos polares desde os anos 1980. O censo mais recente indica que a população de ursos polares na região foi reduzida em 40% ao longo da última década. Este novo estudo pode auxiliar na melhor compreensão deste fenômeno.
— Agora nós temos a tecnologia para compreender como eles estão se movimentando pelo gelo, seus padrões de atividade e suas necessidades energéticas, então podemos entender melhor as implicações que estamos observando na cobertura de gelo sobre o mar — apontou o pesquisador.

Fonte: O Globo

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