
30/01/2018
Veterinários do Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia (CDFW, na sigla em inglês) usaram uma técnica desenvolvida no Brasil para salvar a vida de dois ursos e um puma feridos no incêndio florestal que devastou o estado no fim de dezembro. Os animais foram resgatados com graves queimaduras, principalmente nas patas, e precisavam de tratamento para terem chances de sobreviver. A única saída, proposta por Jamie Peyton, pesquisadora da Universidade da Califórnia, foi testar bandagens de pele de tilápia, usada em experimentos na Universidade Federal do Ceará. A técnica funcionou.
O primeiro urso foi encontrado no dia 9 de dezembro, no quintal de uma casa abandonada. A fêmea adulta de 90 quilos foi sedada e transportada por sete horas entre Ojai e Rancho Cordova, onde está baseada a equipe da veterinária Deana Clifford, do CDFW. Com poucas opções, Deana procurou Jamie, especializada em animais domésticos, que havia comentado o interesse no tratamento de queimaduras em animais.
A pesquisadora criou uma pomada caseira para as patas dos ursos e um processo para esterilizar as peles das tilápias. Essas peles são ricas em colágeno — proteína que promove a cicatrização —, umidade e resistência a doenças. No Brasil, a técnica vem sendo utilizada como substituta das peles de porco e artificiais para o tratamento de queimaduras em humanos. Nos EUA, o procedimento ainda não é aprovado pela FDA e nunca havia sido testado em pacientes veterinários.
Algumas semanas depois, mais dois pacientes chegaram com queimaduras: um segundo urso adulto fêmea e um leão da montanha. Todos foram tratados com a pele da tilápia. Para manter o material no local do ferimento, Jamie cortou peças da pele do tamanho exato das patas e as suturou sobre os ferimentos enquanto os animais estavam anestesiados. Bandagens adicionais de papel de arroz também foram colocadas.
— Nós esperávamos que as bandagens exteriores saíssem, mas tínhamos a esperança de que a tilápia fosse mantida sobre os ferimentos e servisse como pele artificial por tempo suficiente para acelerar a cicatrização — comentou Jamie.
Para complicar ainda mais a situação, um exame de rotina no dia 28 de dezembro revelou que a segunda ursa estava grávida, transformando o tratamento do animal numa corrida contra o tempo.
— Foi uma grande mudança, porque nós sabíamos que não seria ideal que ela desse à luz no confinamento — explicou Deana. — Nós nem estávamos prontos para um parto com a estrutura que tínhamos no laboratório e sabíamos que existia uma alta probabilidade de que ela rejeitasse o filhote por causa do estresse. Nós precisávamos levá-la para a vida selvagem o mais rápido possível.
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