
16/01/2018
Que a vacinação é importante para a proteção individual da pessoa humana é inconteste. Mas o que muitos não imaginam é que, no caso da febre amarela, não se trata apenas do direito do cidadão, mas uma obrigação de toda a população. Isto é o que defende a comunidade científica e as autoridades sanitárias que agora se deparam com um perigo real e imediato: o risco de um mosquito aedes ser contaminado por um paciente com febre amarela, reacendendo a epidemia urbana há muitas décadas adormecida. A análise é do infectologista Edimilson Migowski.
Ele lembra que a vacina tem dupla finalidade, a prevenção individual e a proteção da população. Quanto maior a cobertura, menor será a chance de uma pessoa ser infectada, mesmo aquela que, por problema de grave alergia ao ovo de galinha ou saúde (imunodeficiência por exemplo), não pôde ser vacinada. O especialista aponta ainda outros fatores de risco: enquanto no caso da febre amarela silvestre, o vetor - os mosquitos Haemagogus e Sabethes - têm preferência por primatas não humanos, no caso da urbana, o aedes tem preferência por humanos. Isto, sem levar em conta, a densidade demográfica que potencializa a contaminação pelo número e proximidade de seus habitantes. Um vez contaminado, o mosquito seguirá contaminando não só os humanos, mas seus descendentes (transmissão transovariana- nesse caso os ovos contaminados darão origem a mosquitos contaminados).
Para ele, o sucesso das campanhas de vacinação do passado trouxe um “efeito colateral cultural” para a população brasileira. As últimas gerações não conviveram com os efeitos terríveis de doenças como o sarampo, a coqueluche, mas conhecem bem os efeitos da vacina, que pode causar febre, coceira, entre outros pequenos incômodos. E por isto, acabam esquecendo que muito pior do que os efeitos colaterais de se vacinar são os efeitos individuais e sociais de não o fazê-lo.
Um exemplo deste mal cultural veio do Japão de 1972. Durante uma campanha de vacinação contra a coqueluche, duas crianças morreram. Os médicos demoraram a saber se suas mortes seriam coincidência ou consequência da vacina. Havia sido coincidência, porém o impacto negativo sobre a dúvida prejudicou a cobertura vacinal e dezenas de outras crianças morreram vítimas da doença.
No caso da febre amarela, o risco de um paciente desenvolver algum efeito adverso grave com a vacina é de um para um 500 mil vacinados pela primeira vez, mas a letalidade da doença é uma das mais altas do mundo. Enquanto na dengue a proporção é de 1 morte para cada mil pacientes, e na meningite é de 20 pacientes para cada cem, na febre amarela, o risco é de 30 a 50 pacientes em cada cem, ficando atrás apenas do ebola, que mata 80% dos infectados e da raiva, que mata 100%.
A vacinação embora individual não é e nem deve ser vista como uma decisão de foro íntimo. É uma necessidade de todos.
Fonte: O Globo
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