
16/01/2018
A tragédia que emudece a Mata Atlântica chegou ao Estado do Rio. Após calar, no verão passado, as florestas de Minas Gerais e do Espírito Santo ao dizimar bugios, os macacos cantores, a febre amarela é apontada agora como a provável razão para o silêncio em que mergulharam as áreas verdes fluminenses, onde foi confirmada a circulação do vírus. No alto de árvores nobres, como jequitibás e perobas, da Reserva Biológica do Tinguá, na Baixada Fluminense, o bugio já não canta mais, sinal do impacto da doença sobre o meio ambiente.
Há consenso no Tinguá sobre o desaparecimento e o silêncio dos bugios, também conhecidos como barbados por causa de sua espessa pelagem ruiva. A chefe da reserva, Virgínia Talbot, os escutou pela última vez no fim de setembro, um chamado distante, vindo de um lugar chamado Boa Esperança. O último bugio se fez ouvir numa expedição ao Pico do Tinguá, a montanha de 1.600 metros de altura que dá nome à região.
— Provavelmente, morreram todos ou quase todos. Em outubro, foi achado um animal morto. Procurei a Fiocruz, a Secretaria estadual de Saúde. A confirmação só saiu no fim de dezembro. Desde outubro, fiz o que pude para alertar as pessoas das comunidades do entorno. Não é normal macacos desaparecerem assim, de uma só vez. Essa floresta é enorme para os padrões do Rio, ninguém sabe o tamanho do estrago da doença. Pelo silêncio profundo, pode ter sido muito grande — lamenta Virgínia, que gostaria que houvesse mais pesquisas na reserva.
A 16 quilômetros do Centro de Nova Iguaçu e a pouco mais de 70 do Rio, a reserva é uma ilha de biodiversidade no meio do asfalto. Abriga uma das mais bem preservadas e ricas matas do Sudeste e é fundamental para o abastecimento de água da Baixada Fluminense. Andava esquecida até se tornar cenário da chegada do vírus da febre amarela à Região Metropolitana.
Os macacos são os engenheiros da mata. Ao dispersarem sementes, integram a teia de vida na qual se sustenta a Mata Atlântica, um dos mais diversificados e ameaçados biomas da Terra. Por isso, a mortalidade maciça causada pela febre amarela é considerada por primatologistas como Sergio Lucena, diretor do Instituto Nacional da Mata Atlântica, uma das maiores tragédias ambientais da história recente do Brasil.
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