
07/11/2017
Um país de 890 mil habitantes distribuídos por 300 ilhas e atóis assumiu a presidência da Conferência do Clima de Bonn (COP-23), aberta ontem na Alemanha. Localizado no Pacífico Sul e sentenciado ao desaparecimento até o final do século diante do aumento do nível do mar, Fiji reforçou seu pedido por financiamento para adaptação às mudanças climáticas e metas nacionais mais ambiciosas contra a emissão de poluentes. Os compromissos apresentados pela comunidade internacional para o Acordo de Paris resultariam em um aumento da temperatura global de 3 graus Celsius. Estados insulares como Fiji defendem que este índice seja cortado pela metade.
Harjeet Singh, líder global da ActionAid International em mudanças climáticas, ressalta que os eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes e testam a vulnerabilidade dos países menos desenvolvidos, que recebem recursos insuficientes das nações ricas.
— A presidência de Fiji tem a responsabilidade moral de assegurar que faremos um grande progresso relacionado ao financiamento climático — ressalta. — Precisamos que as negociações tragam resultados tangíveis. Não podemos ir embora e dizer para as pessoas que serão afetadas pelos desastres: “desculpem, vocês estão sozinhos”.
O aumento do nível do mar, aliado ao crescente aquecimento das águas do Pacífico durante o fenômeno El Niño, aumentaram a suscetibilidade de Fiji a enfermidades relacionadas à água e aos alimentos. O país registrou surtos de diarreia em 2011, leptospirose após uma inundação em 2012 e dengue no ano seguinte. Também foi atingido em 2016 pelo ciclone Winston, que atingiu as casas de 40% da população e provocou um prejuízo de US$ 1,4 bilhão. A acidificação do oceano compromete a integridade dos recifes de corais.
Os mesmos problemas são vistos na maioria dos membros da Associação dos Pequenos Países Insulares (Aosis), um grupo de 44 nações costeiras de baixa altitude que, nas conferências climáticas, reivindicam que a elevação dos termômetros seja limitada a, no máximo, 1,5 grau Celsius, meta que muitos cientistas já consideram impraticável. A aliança encomendou um estudo, que será divulgado no ano que vem, detalhando como será o planeta se o aquecimento for restrito à marca que defendem.
Para Thelma Krug, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a ameaça à existência dos países insulares demonstra precisamente a urgência para conter os eventos extremos.
— Trata-se de uma nação tão pequena que não tem sequer a infraestrutura para hospedar a COP em seu território — conta. — Se a emissão e concentração de gases-estufa forem mantidas nos níveis atuais, não poderemos esperar que os países revejam suas metas climáticas apenas em 2023, como é previsto no Acordo de Paris. A expansão térmica do nível do mar e o derretimento das geleiras já motivam alguns Estados insulares a investir em planos de evacuação.
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