
31/10/2017
Desnutrida, menos produtiva, mais vulnerável a doenças infecciosas e catástrofes naturais. A população mundial está cada vez mais exposta a enfermidades como consequência direta e indireta das mudanças climáticas. Os danos à saúde provocados por eventos extremos foram tema de um estudo internacional publicado na revista “Lancet”. Segundo seus autores, as transformações ambientais provocadas pelo homem ameaçam minar os progressos realizados pela medicina nos últimos 50 anos.
“A resposta demorada às mudanças climáticas nos últimos anos prejudicou a vida humana e seus meios de subsistência”, criticaram representantes das 24 organizações que elaboraram o relatório chamado “A contagem regressiva: acompanhamento dos progressos em saúde e mudanças climáticas”. Os sintomas, ressaltam, são “potencialmente irreversíveis” e terão um impacto desproporcional no planeta, afetando principalmente os países que emitem menor quantidade de gases de efeito estufa.
Com a elevação da temperatura da Terra, aumentou em 125 milhões, desde o início do século, o contingente de afetados pelas ondas de calor, como as registradas no último verão europeu. A produtividade do trabalho rural caiu 5,3% desde 2000 — no ano passado, a elevação dos termômetros tirou mais de 920 mil pessoas da força de trabalho. O aquecimento global é implacável com a agricultura. Estima-se que, a cada aumento de 1 grau Celsius na temperatura, a produção de trigo cai 6% e a de arroz, 10%. Com menos comida, maior a incidência da desnutrição.
De acordo com o levantamento da “Lancet”, a poluição atmosférica mata cerca de 18 mil pessoas por dia. Na amostra aleatória de cidades realizada pelos pesquisadores, concluiu-se que 87% estão violando as diretrizes de poluição atmosférica estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva destaca que, por pressão dos países desenvolvidos, a saúde nunca mereceu um capítulo nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). As doenças relacionadas ao clima só passaram a ser denunciadas em 2013, quando a OMS debruçou-se sobre o tema.
— Houve um aumento acentuado da área de circulação de mosquitos transmissores de doenças como a dengue e a malária, porque as cidades estão mais quentes e, por isso, semelhantes às florestas tropicais, o seu habitat natural — destaca Saldiva. — Devemos mostrar às pessoas o impacto das mudanças climáticas em suas vidas, e não em um futuro distante. Por exemplo, como a preferência por caminhar, em vez de usar meio de transporte, pode reduzir a ocorrência de doenças como o infarto.
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