
17/10/2017
Seis dias antes do previsto, Benedito de Souza removeu a areia, em busca do ninho de tartarugas-da-amazônia que escondeu semanas atrás dos predadores. Estava tão escondido que demorou a encontrá-lo e, quando conseguiu, se surpreendeu com as dezenas de filhotes em debandada.
Durante a seca, o sinuoso rio Purus, ao sul da Amazônia brasileira, recua, deixando em descoberto vastas praias onde milhares de tartarugas desovam a cada ano. Das embarcações são visíveis as pegadas, um rastro que os caçadores aproveitam, o que deixa Benedito obcecado.
— São como meus filhos — diz, à beira das lágrimas, improvisando um saco com sua camiseta para recolher rapidamente os velozes répteis, os primeiros a nascer na temporada.
O líder comunitário fez seu primeiro curso ambiental em 2007 e, com outros vizinhos, cuida das margens na reserva protegida Médio Purus durante a desova, entre junho e novembro.
As tartarugas-da-amazônia, que chegam a medir um metro, ainda não são consideradas ameaçadas, mas "de fato estão", esclarece Roberto Lacava, diretor do Programa Quelônios da Amazônia, vinculado ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), que visa a proteger as espécies amazônicas de tartarugas em seus habitats de forma sustentável.
Com apenas vinte funcionários para oito estados, o programa depende de voluntários no Amazonas que, com uma superfície maior que a do vizinho Peru, representa um desafio em particular.
Ali se inserem os moradores do Médio Purus que desde 2014 perderam apoio econômico do Ibama. Vendo a atividade ilícita como mais rentável, voluntários treinados aproveitaram seus conhecimentos para virar traficantes.
— Muitos esperavam ser remunerados e como não foram, se tornaram predadores — explica Benedito, acomodando os filhotes em um tanque para levá-los a um lago, aumentando suas chances de sobrevivência.
Este ano, o governo anunciou um corte de 43% no orçamento do Ministério do Meio Ambiente, ao qual o Ibama está vinculado, e o presidente Michel Temer vem colecionando críticas sobre seu posicionamento no tema ambiental.
— De fato é uma preocupação bem grande. Houve uma redução bem drástica, teremos que enviar menos servidores a campo e isso pode se mostrar, ter algum impacto grande nos resultados que a gente vem obtendo — avalia Lacava.
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