
19/09/2017
Com uma vista de 360 graus e 407 metros de altitude, a Pedra do Cantagalo é o segundo ponto mais alto da cidade, ficando atrás apenas do Alto Mourão, com 412 metros. Cercado por uma natureza deslumbrante e pouco conhecido até mesmo por niteroienses, o cume teria todos os requisitos para ser o símbolo do montanhismo em Niterói não fosse pelo domínio do tráfico de drogas nas trilhas de acesso. Incorporada ao Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset) há cinco anos, a Reserva Ecológica Darcy Ribeiro, criada por lei municipal há duas décadas, continua, em grande parte do seu território, apenas no papel. Ações ambientais e visitações às trilhas na maior área contínua da Mata Atlântica nativa da cidade estão na mira de traficantes e criminosos que utilizam os acessos para desmanche de carros roubados e rota de fuga.
Se a prática das trilhas vem ganhando cada vez mais adeptos e sendo incentivada com novas opções como a recém-inaugurada Travessia Tupinambá, que liga o Parque da Cidade a Piratininga, nas trilhas da Reserva Darcy Ribeiro o passeio não é indicado nem mesmo pela administração do parque, diferentemente do que ocorre em trilhas demarcadas e monitoradas pelo Peset, como o Costão e o Alto Mourão, com placas e presença de guarda-parques. O alerta de perigo também é dado por moradores já na estrada de acesso.
— Se for fazer a trilha, não deixe o carro na entrada. Podem confundir com carro de desmanche e, quando você voltar, vai estar depenado — orienta um senhor na pacata Estrada Frei Orlando, no bairro Jacaré, ao ser questionado por um praticante de caminhadas sobre o local exato do acesso à trilha do Cantagalo, que fica no final da via de terra.
Não existe sinalização indicando o início da trilha. Moradores de boa vontade indicam a entrada, que fica à esquerda. Seguindo direto pela estrada de chão, que liga o bairro ao condomínio Vila Romana, em Pendotiba, dezenas de carcaças abandonadas contrastam com a vegetação predominante da área de proteção. Voltando à trilha da Pedra do Cantagalo, outras surpresas pelo caminho como bichos-preguiça e nascentes de águas cristalinas impressionam ainda mais. Mas o perigo também está por ali: traficantes armados costumam questionar a presença de caminhantes e monitoram a entrada à subida da pedra com radiotransmissores, “autorizando” a escalada final.
Membro do conselho consultivo do Peset, o ambientalista Cassio Garcez, do grupo Ecoando, Ecologia e Caminhadas, destaca que o problema na área Darcy Ribeiro é pontual e antigo. Ele afirma que, apesar de ser recomendado cuidado em trilhas próximas a comunidades dominadas por traficantes, nenhuma outra da cidade tem o mesmo perigo que essa.
A matéria pode ser lida em O Globo
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