
12/09/2017
Exatamente 50 anos após a publicação da Teoria de Biogeografia de Ilhas, modelo amplamente utilizado para compreender a distribuição e a riqueza de espécies terrestres em ilhas, pesquisadores lançam uma nova teoria que explica a origem e evolução da vida marinha nesse ambiente. O estudo foi publicado hoje no renomado jornal Nature e corresponde a um dos capítulos da tese de doutorado de Hudson Pinheiro, realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do programa Ciência sem Fronteiras.
O artigo é assinado, ainda, por Giacomo Bernardi, da Universidade da Califórnia Santa Cruz, onde Hudson cursou o doutorado; do bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 do CNPq, Jean-Christophe Joyeuxe e dos pesquisadores Thiony Simon e João Luiz Gasparini, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); Raphael Macieira, da Universidade de Vila Velha, além de Claudia Rocha e Luiz Alves da Rocha, da Academia de Ciências da Califórnia.
Para compreender como as espécies se originam nas ilhas, os pesquisadores da UFES primeiro desvendaram a biodiversidade dos ambientes recifais dos montes submarinos e ilhas da Cadeia Vitória-Trindade, localizados na costa capixaba. Esses montes são extremamente isolados e profundos. Assim, a equipe precisou capacitar-se com técnicas avançadas de mergulho e utilizar equipamentos específicos para explorar áreas até 85 metros de profundidade e a 900 km de distância da costa brasileira.
A proposta da nova teoria veio com o estudo da história evolutiva dos peixes endêmicos da Cadeia Vitória-Trindade, ou seja, estudando as espécies que só existem ali nos montes submarinos e nas ilhas, e em mais nenhuma outra região do planeta. Por meio de parcerias com a Academia de Ciências da Califórnia e a Universidade da Califórnia Santa Cruz, o time de pesquisadores liderado pelo capixaba Hudson Pinheiro estudou o DNA destes peixes para entender a evolução e a origem deles.
"Descobrimos que a maior parte das espécies endêmicas são pequenas, possuem capacidade de migração muito limitadas, e se originaram recentemente. Um número pequeno de espécies terrestres chega nas ilhas, onde acabam diversificando-se para ocupar todos os ambientes disponíveis. No ecossistema marinho, todos ambientes são ocupados por espécies com boa capacidade de se dispersar, e a origem de novas espécies só ocorre quando os peixes com menor capacidade de dispersão chegam nas ilhas", relata Hudson Pinheiro, atualmente pesquisador associado da Academia de Ciências da Califórnia e da Associação Ambiental Voz da Natureza.
Segundo os pesquisadores, a Cadeia Vitória-Trindade representa um dos poucos ambientes marinhos do mundo onde é possível estudar os processos de evolução nos oceanos. "A distribuição linear dos montes e ilhas da Cadeia, e o isolamento são as principais características que propiciam esse tipo de estudo" diz o Prof. Jean-Christophe Joyeux. "Peixes e diferentes organismos marinhos de águas rasas utilizam os montes submarinos como trampolins, alcançando a Ilha da Trindade. Isso explica a diversidade de peixes na Ilha", completa o cientista. A maioria das espécies que não conseguem se dispersar utilizando os montes são as que vivem nos ambientes rasos ao redor de Trindade. Segundo o Raphael Macieira, "estas são as espécies que ficam geneticamente isoladas e se tornam endêmicas da ilha, sendo somente encontradas lá".
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