
11/07/2017
Entre o vai e vem de carros, o som de buzinas e à sombra de prédios altos, o Rio tem uma ilha de biodiversidade para a qual poucos cariocas prestam atenção na correria do dia a dia. Mais precisamente, uma lagoa. No coração da Zona Sul, a Lagoa Rodrigo de Freitas, que teve uma melhora na qualidade de suas águas nos últimos anos, vive um renascimento de seu ecossistema, com o ressurgimento de algumas espécies de animais que não eram vistas por ali. Mesmo antes da despoluição, garantem especialistas, o local sempre foi um rico habitat, que também vem sofrendo, por outro lado, com a presença de animais invasores, que podem desequilibrar a cadeia alimentar local.
Para o biólogo Mário Moscatelli, que desde a década de 80 levanta a bandeira da recuperação da Lagoa, o símbolo desse renascimento da biodiversidade é o frango d’água. Trata-se de uma ave que parece uma galinha preta, com crista vermelha, que tem pouca capacidade de voo, mas pode flutuar como um pato. Vive em pântanos e lagos, em ambiente de Manguezal — que não existia na Lagoa antes de 1989, quando o próprio Moscatelli começou a plantar a vegetação de mangue nas margens do espelho d’água.
— Em 1989, eu nunca tinha visto um frango d’água. Essa ave apareceu não sei como em 1999 e hoje ela é o símbolo desse incremento de biodiversidade. A Lagoa virou um verdadeiro poleiro de frango d’água. A partir do momento que a gente consegue diversificar a cobertura vegetal com os manguezais e melhorar as condições da água, a Lagoa volta a assumir o papel de berçário que tem por natureza — diz Moscatelli.
Além do frango d’água, começaram a ser vistos pela Lagoa, nos últimos anos, outras aves como o savacu, de pernas cumpridas e bico preto. A ave se alimenta de pequenos caranguejos de mangue. Já a marreca toicinho, conhecida por parecer um marreco com a base do bico vermelha e a cabeça metade branca e metade marrom, também tem sido vista pela Lagoa com mais frequência.
Moscatelli destaca que os animais chegam à Lagoa se deslocando das áreas do Maciço da Tijuca, pelas praias da região (no caso dos peixes, principalmente) ou com a “mãozinha de alguém”. O frango d’água, por exemplo, tem baixíssima capacidade de voo, e reza a “lenda” que chegou pelas mãos de morador da Lagoa, que levou um casal de bichos para local. Já o caranguejo guaiamum, que Moscatelli jura já ter visto cruzando as ciclovias, foi levado para o local pelo próprio biólogo no fim da década de 80, quando começou o plantio da vegetação de mangue. As capivaras, que viraram outro símbolo da fase mais recente (e menos suja) da Lagoa também estão se reproduzindo.
No grupo dos répteis, um novo morador é o lagarto teiú. Segundo o biólogo e fundador do Instituto Jacaré, Ricardo Freitas Filho, trata-se de um dos maiores lagartos da América Latina, que pode chegar a 1,5 metro. Mas não espere vê-lo pela Lagoa no próximo fim de semana: no período do inverno, ainda que de temperaturas cariocas, o bicho costuma hibernar. Por causa do seu porte, o lagarto, que é um predador, precisa de calor para metabolizar o que come. Na avaliação de Ricardo, o lagarto, que vive na Mata Atlântica, pode ter chegado à Lagoa atraído pelo plantio nas áreas de margem, e devido à proximidade com locais como o Parque da Catacumba, no mesmo bairro, o Jardim Botânico e o Corcovado.
A matéria pode ser lida em O Globo
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