
04/07/2017
É vento soprando, perigo rondando. Quando vem do nordeste, a rajada de ar deixa os moradores da praia acordados como sentinelas. Em noites de lua cheia ou crescente, a maré alta invade a orla e engole o que encontra pelo caminho. Depois, quando o mar amansa, restam escombros parecidos com sepulturas na areia, pedaços do que já foram casas. Tem sido assim desde 1973. Havia não uma, mas 500 residências, igreja, posto de combustível para embarcações, delegacia, um prédio de quatro andares, 15 ruas inteiras: tudo tragado pelo Atlântico insaciável.
O mar de Atafona é marrom. Azul são os olhos do pescador Manoel Rosa, que veem com temor o escurecer do céu, enquanto sopra o “nordestão brabo”, como ele chama o vento. Passará a noite insone, com mulher, filho e sogra, à espera do inimigo. As defesas contra o mar são poucas naquela pequena casa de dois cômodos, usada como canil pelo antigo proprietário, um advogado de Campos que abandonou a construção: uma cerca de madeira e um banco de areia de dois metros de altura. O mar ainda não bate à porta, mas já começou a golpear a base da pequena duna que sustenta tudo. O canil que virou casa virá abaixo. Só não se sabe quando.
— Sou nascido em Atafona, minha casa ficava lá onde está aquele barco — diz o pescador de 46 anos, apontando uma traineira no meio do mar, a pelo menos 500 metros de distância. — Não tenho como pagar aluguel. A casa estava vazia, a gente entrou. Ninguém consegue dormir aqui. O barulho do mar assusta.
O novo capítulo trágico na história de Atafona está na foz do Rio Paraíba do Sul, o mais importante do estado, que abastece dez milhões de pessoas. À beira do rio, no Pontal de Atafona, ficam frigoríficos de peixes onde as embarcações atracam, descarregam, enchem o tanque de gasolina e o depósito de gelo, antes de os pescadores saírem de novo para o alto-mar e voltarem até uma semana depois. Agitado como as ondas, o pescador Osni Meireles, de 39 anos, é o retrato do desespero. Seu barco está a 20 metros do píer. A areia trazida pelo mar está assoreando a foz do rio, e onde havia cinco metros de profundidade, no píer dos frigoríficos, formou-se uma praia.
— Quando a maré baixa, o barco fica ancorado lá embaixo, a mais de cem metros do píer. Temos que levar o peixe nas costas. E o pior: os barcos mais pesados, como o meu, estão encalhando. Há um mês começamos a descarregar no Espírito Santo, são quatro horas de navegação, custo de alimentação, combustível, salário dos empregados e mais a taxa que os capixabas cobram da gente — desabafa Osni, enquanto carrega de gelo seu barco, batizado como “Custou, mas saiu”.
— Gasto R$ 3 mil a mais para entregar o peixe no Espírito Santo, que de lá vai para o Ceasa, no Rio. Atafona está perdendo esse dinheiro.
O povoado tem 30 mil moradores e 80% deles vivem da pesca. Muitos dos quatro mil pescadores vinculados à associação local estão fazendo o mesmo que Osni. Apenas barcos com menos de dez toneladas conseguem atravessar a foz do rio. Custa cada vez mais sair para o mar. Um vídeo recente feito por um pescador mostra uma dezena de barcos imóveis, que não conseguem avançar diante do mar bravio.
— Isso porque a maré está cheia. Os bancos de areia estão fechando o canal de navegação. O mar está igual cadeia sem porta — diz o homem.
Também é preciso esperar a maré encher para conseguir entrar no canal. Às vezes, os pescadores passam 12 horas parados, aguardando o momento de voltar para casa. Quem é teimoso acaba encalhando, correndo o risco de perder a pesca e o barco. Enquanto isso, os donos dos frigoríficos perdem o serviço das grandes embarcações, de até 20 toneladas. Mas o pior é o risco desses negócios à beira-rio desaparecem por completo. Há duas semanas, a água começou a invadir o que sobrou do Pontal de Atafona.
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