
06/06/2017
A crise econômica atinge todo o país, mas em alguns setores ela parece pior. É o caso da área ambiental, segundo levantamento inédito do GLOBO inspirado no Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado hoje. A reportagem compilou a verba destinada em 2017 às secretarias responsáveis pela gestão de áreas verdes e recursos marinhos de 27 unidades da federação — em 19, o orçamento diminuiu ou aumentou abaixo da inflação em relação ao ano passado. A perda total neste período foi de R$ 115,8 milhões.
José Carlos Carvalho, ex-ministro do Meio Ambiente, destaca que o orçamento da área é tradicionalmente baixo.
— O meio ambiente, assim como cultura, ciência e tecnologia, não está entre as prioridades do poder público. São as primeiras secretarias a sofrer sucateamento — alerta. — Em muitos estados, o governo está se apropriando de recursos que obrigatoriamente deveriam ser destinados à área ambiental, como fundos de compensação pagos por empresas para atuar em áreas inundadas, e aplicando-os em outras pastas.
Entre as 864 localidades de conservação administradas por governos estaduais, mais de 750 estão em unidades da federação que perderam receita desde o ano passado. O prejuízo, assegura Carvalho, é imediato — faltam guarda-parques, veículos para fiscalização e verba para manutenção de infraestrutura e prevenção de combate a incêndios florestais.
Economista e ex-pesquisador da Rede Clima, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Tiago Cisalpino sublinha que a sociedade está demonstrando mais preocupação com o meio ambiente, mas que o setor é esquecido diante de demandas de curto prazo, como saúde e educação. Também é comum que projetos formulados por um governo sejam abandonados pela gestão seguinte.
— Nossa biodiversidade é um capital natural absurdamente alto, que exige um planejamento complexo — explica Cisalpino. — Como vivemos em um sistema político que opera de quatro em quatro anos, é necessário atender os desejos do eleitorado, e ele se mobiliza apenas para atender o funcionamento básico. A causa ambiental, na mentalidade da população, está em crescimento, mas não é uma prioridade.
Vice-presidente da Conservação Internacional, Rodrigo Medeiros diz que a falta de investimentos no meio ambiente também tem efeitos sobre áreas urbanas, inclusive para a saúde da população.
— O exemplo mais recente é a epidemia da febre amarela, uma doença que estava controlada há décadas — lembra. — O surto começa com a redução de habitat para diversas espécies no campo, o que proporcionou a difusão da forma silvestre da enfermidade.
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