
30/05/2017
Nas florestas mergulhadas em nuvens da Mantiqueira, as aves encontraram um paraíso. As matas protegidas pelo Parque Nacional do Itatiaia (PNI), entre os estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, reúnem quase um quinto das 1.919 espécies do país. O parque chega aos 80 anos de fundação (o aniversário será no próximo dia 14) como um dos melhores lugares do Brasil para observação de pássaros. Seus 28 mil hectares oferecem concertos da natureza o dia inteiro.
Nas montanhas do parque, a Mata Atlântica tem muitas vozes. “No lusco-fusco do raiar do dia, quando as corujas se despedem, você ainda ouve o murucututu-de-barriga-amarela”, conta o ornitólogo Luciano Lima. Com quase um quilo e 50 centímetros, a coruja é a rainha das aves noturnas. E Lima, o maior especialista da avifauna de Itatiaia.
Quando o sol nasce, começa o coro da manhã. Nas florestas da primeira unidade de conservação do país, diz Lima, as vozes mais comuns são da juruva-verde, do arapaçu-de-garganta-branca e do falcão-caburé. Várias espécies de saíras cantam em tons metálicos. Na parte alta do parque, o pula-pula-assobiador parece onipresente. Com um trinado que ganha intensidade a cada nota, ele consegue chamar a atenção a uma longa distância.
Em meio a tantos sons, nenhuma voz das matas de Itaiaia cala tão fundo quanto a da saudade. Já se passou quase um século desde que “um som tão triste, que se parecia mais com o lamento de um espírito do bosque do que uma vibração de origem puramente orgânica” deixou o naturalista americano Ernest Holt em êxtase enquanto ele cruzava, num fim de tarde, a parte mais elevada das florestas da Mantiqueira. Era a saudade que cantava.
— A saudade (Lipaugus ater) é a voz mais característica do parque — destaca Lima.
Depois que a saudade se cala e a noite chega, as corujas voltam a reinar, voando das matas mais baixas aos campos do planalto. Foi essa extrema diversidade, em todas as horas do dia, que conquistou Holt, autor de uma obra pioneira sobre a avifauna da região, publicada em 1928. E também encantou Lima em seus tempos de menino. Hoje, o ornitólogo é o coordenador do primeiro observatório de aves do Brasil, o do Instituto Butantan, em São Paulo. Tinha 13 anos quando começou a pesquisar os pássaros do parque. Nunca mais parou.
Lima cuida da lista de aves da Mata Atlântica para o Ministério do Meio Ambiente, e, com o também ornitólogo Bruno Rennó, concluiu recentemente uma atualização, resultado de 18 anos de estudos de campo e de revisões de registros dispersos em diferentes publicações. Os cientistas chegaram a 363 espécies só dentro do PNI. Se somadas às encontradas no vizinho Parque Estadual da Pedra Selada — as duas unidades de conservação compõem a mesma região —, são 397.
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