
28/03/2017
O Rio de Janeiro, estado que, há alguns anos, prometia ser o primeiro do Brasil a acabar com os lixões, anda na contramão desta expectativa, empurrado pela crise econômica. Hoje, o número de vazadouros a céu aberto em território fluminense chega a pelo menos 29, contra os 17 identificados em 2015, segundo um levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). O despejo em locais inapropriados cresce a passos largos.
Mesmo municípios que já tinham dado destino adequado a seus detritos voltaram a descumprir a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que previa a erradicação dos lixões até 2014. Se não surgir uma mudança rápida de rumo, diz Carlos Roberto Silva Filho, presidente da Abrelpe, o risco é de ocorrer, em breve, um colapso no sistema de limpeza urbana.
Quase sempre a justificativa tem sido o atoleiro financeiro no qual os municípios afundaram. Muitos pararam de avançar nos planos de encerrar seus lixões. Outros, apesar de terem aterros sanitários licenciados em suas regiões, vêm optando pelo descarte irregular, em nome de uma suposta economia. Assim, persistem casos como o de Resende, na Região do Médio Paraíba: desde 2014, a cidade poderia usar o aterro sanitário de Barra Mansa, mas despeja diariamente cerca de 15 toneladas de detritos no lixão do Bairro Bulhões, onde o chorume corre livre pelo solo. Para lá também é levado o lixo de Penedo e Visconde de Mauá.Vergonhosos símbolos de décadas de descaso com o meio ambiente, os lixões de Gramacho, em Duque de Caxias; de Itaóca, em São Gonçalo; e do Babi, em Belford Roxo, voltaram a funcionar, dentro de suas áreas originais ou em terrenos contíguos. O levantamento da Abrelpe identifica vazadouros que se espalham de Itaperuna, no Noroeste Fluminense, a Saquarema, Araruama e Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, operados pelos próprios municípios ou por grupos clandestinos. Alguns, alerta a associação, constam como desativados no Instituto Estadual do Ambiente (Inea), mas aumentam a cada dia.
- A crise impacta o orçamento das prefeituras, mas há um descompromisso das administrações públicas com o tema - afirma Carlos Roberto Silva Filho. - Ao trocarem os aterros pelos lixões, os municípios aumentam os gastos com a despoluição de rios e do mar. Nossos estudos mostram que, em 2015, o Brasil gastou R$ 1,5 bilhão só para tratar pessoas com doenças relacionadas à gestão inadequada de resíduos.
O presidente da Abrelpe lembra que, entre 2007 e 2013, o Estado do Rio seguia um curso diferente. A quantidade de municípios fluminenses que destinavam o lixo corretamente tinha saltado de quatro para 63, o que correspondia ao descarte correto de 93% dos detritos gerados. O programa Lixão Zero, da Secretaria estadual do Ambiente (SEA), incentivava a formação de consórcios intermunicipais para a construção de aterros sanitários. E, dos 70 lixões de 2007, 53 tinham sido fechados.
Hoje, o estado produz 22 mil toneladas diárias de detritos, mas 7 mil vão para vazadouros a céu aberto, afirma o presidente da Abrelpe. Ou seja, só 68% do lixo têm destinação correta, percentual acima da média nacional (58%), mas abaixo dos patamares de São Paulo (77%) e do Sudeste (73%).
A matéria pode ser lida em O Globo
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