
21/03/2017
Uma verdade sobre franceses: eles não têm problema em repreender desconhecidos. Em Paris, quem não recolhe o cocô do seu cachorro durante um passeio corre o risco de levar uma dura no idioma (e à maneira) do general De Gaulle. O carioca Rafael Duarte descobriu este traço regional quando morou na capital francesa, entre 2013 e 2014. Logo que foi botar seu primeiro lixo para fora, um vizinho lhe deu o recado: “Monsieur, não sei como é no seu país, mas aqui nós separamos o lixo reciclável e o orgânico”.
— Achei aquilo fenomenal, sinal de evolução — diz ele, sem ironia. — Na Zona Sul do Rio, onde cresci, a gente já deveria estar nesse nível.
A partir daquela crítica pública, Rafael passou a analisar melhor seu consumo. E se deu conta de que o cesto de lixo pode ser um buraco negro: o que entra lá desaparece, deixa de existir, como se nunca tivesse passado por nossas mãos.
Esse raciocínio continuou fervilhando na cabeça do fotógrafo, que estava em Paris para estudar Cinema (sempre em busca de narrativas visuais sobre o equilíbrio do planeta, Rafael criou várias webséries, a equipe de expedições Miramundos e dirigiu os documentários “Whiteout” (2015) e “Trilha Transcarioca” (2017), programas de sua produtora Bambalaio). Naquele momento, sua curiosidade específica era saber se um olhar prolongado para o consumo doméstico poderia dar em alguma arte.
Até que concebeu o projeto que chamou de iTrash. Ia pedir para conhecidos guardarem seu lixo seco (para minimizar o transtorno) durante 14 dias. No final do período, tiraria um retrato do voluntário com o que foi acumulado.
A empreitada já alcançou 12 pessoas, seis no Rio e seis em Paris. A ideia agora é encontrar parceiros para ampliar a iniciativa, envolvendo mais gente, mais cidades, e fazer não apenas fotos, mas um documentário. Ao longo do tempo, o que começou com uma dúvida de caráter ambiental (o que uma pessoa consome em duas semanas?) levou a outra, psicológica: o que seu lixo diz sobre você? Ou ainda: ver ele exposto leva a alguma transformação? Resposta: talvez.
Observando duas semanas de cervejas e vinhos à sua frente, uma jornalista se deu conta de que precisava frear sua vida acelerada. Um músico, com vergonha que o filho visse maços de cigarro, tentou parar de fumar. Outra artista não se reconhece mais nas embalagens de fast food que acumulou. E até este que vos escreve, que encarou a experiência por uma semana, já está repensando escolhas.
Diante dos resultados obtidos até agora no projeto iTrash, Rafael teve o que chama de “insight artístico”.
— Nosso lixo é um objeto íntimo. Um saco com o que consumimos revela muito sobre um indivíduo. De certa forma, abrir uma lixeira é invadir a intimidade de alguém — conta Rafael, explicando o estilo adotado no ensaio fotográfico, publicado pela primeira vez nesta edição da Revista O GLOBO. — Não quis fazer estética publicitária, com destaque para o objeto. Busquei cenários que tivessem a ver com os personagens, queria que eles tivessem o foco principal.
A matéria pode ser lida em O Globo
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