
14/02/2017
Paraíso ecológico localizado em trecho da Serra do Mar, na divisa do estado do Rio de Janeiro com São Paulo, e que corta os municípios de Angra dos Reis (RJ), Paraty (RJ) e Ubatuba (SP), a Serra da Bocaina está no radar de pesquisadores e autoridades públicas. Região que abriga o parque nacional de mesmo nome, com 104 mil hectares de Mata Atlântica protegida e berço de belíssimas cachoeiras, como as de Santo Isidro, das Posses e do Veado, a Serra da Bocaina entrou em alerta hídrico.
O sinal foi dado por comunidades tradicionais da região, em 2014 e 2015, anos de crise hídrica em todo o Sudeste. Segundo as populações quilombolas e caiçaras, nunca antes a microbacia do rio Carapitanga havia apresentado essa situação de desabastecimento. Diante do alerta, a pesquisadora Ana Luiza Coelho Netto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ, decidiu investigar por completo a gestão das águas na região.
Docente no Departamento de Geografia do Instituto de Geociências do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN/UFRJ) e coordenadora do Laboratório de Geo-Hidroecologia (Geoheco) da universidade, Ana Luiza tem desenvolvido os estudos em parceria com o Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina, da Fundação Oswaldo Cruz (OTSSB/Fiocruz). O intercâmbio entre os pesquisadores tem possibilitado o avanço nas investigações e o levantamento de algumas hipóteses para o problema, nunca antes visto na região.
Entre as principais suspeitas estão o aumento no fluxo sazonal de pessoas para os municípios de Angra, Paraty e Ubatuba, que atraem muitos turistas nos verões e feriados. Além da atividade turística, a agricultura, o funcionamento de oficinas náuticas e até a retirada de água em poços artesianos de uma única região do aquífero fissural do rio Carapitanga podem estar por trás do desabastecimento.
"Por dois anos seguidos, observamos que a oferta de água na região da microbacia do rio Carapitanga, que corta o perímetro urbano de Paraty, não estava sendo suficiente para abastecer a população. Apesar dos anos de 2014 e 2015 terem sido atípicos, queremos investigar de forma completa que outros elementos podem estar levando a essa falta de água na Serra da Bocaina", diz Ana Luiza.
Coordenador geral do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina, Edmundo Gallo explica que a intenção dos pesquisadores é fazer uma análise completa da gestão ambiental local. Serão avaliados, assim, os impactos e efeitos de uma série de mudanças, sejam elas climáticas, de vazão da água dos rios, de assoreamento e até de contaminação por esgotamento sanitário, por agrotóxicos utilizados em plantações locais e por combustíveis, via descarte incorreto de oficinais náuticas.
"O rio Carapitanga nasce numa aldeia na Serra da Bocaina e passa por sete comunidades rurais, um quilombo e uma comunidade caiçara. Muito além de ser uma importante fonte para o abastecimento dessas populações, o rio está ligado diretamente à cultura das comunidades locais", explica Gallo.
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