
07/02/2017
Semanas antes do anúncio dos primeiros casos de febre amarela silvestre, em janeiro, a doença já atingia moradores do Leste de Minas Gerais. Famílias de pequenos municípios, como Piedade de Caratinga, choravam seus mortos e doentes em dezembro, sem saber de que mal se tratava. Nunca tinham ouvido falar de febre amarela na região. Os macacos começaram a morrer meses antes nessa parte de Minas. Após a zika, em 2015, e a chicungunha, em 2016, o maior surto de febre amarela silvestre da história recente marca o terceiro ano consecutivo sob o julgo de doenças transmitidas por mosquitos no Brasil. Segundo o último informe do Ministério da Saúde, há 921 casos notificados no Brasil, 804 dos quais em Minas Gerais. Porém, 702 estão em investigação, 161 foram confirmados e 58 descartados. Há 150 mortes suspeitas, 60 das quais já foram confirmadas e três descartadas. As demais permanecem em investigação.
Dalva de Lima Oliveira, do Córrego dos Adão, Piedade de Caratinga, Minas Gerais, contou um a um os dias para que a vacina da febre amarela começasse a proteger os quatro filhos. O marido de Dalva, José Campos de Oliveira, de 53 anos, adoecera pouco antes do Natal. Morreu dia 31, sem ver o Ano Novo.
— Ele não aguentou esperar o ano chegar. A gente nunca tinha ouvido falar de febre amarela e, quando ele morreu, ninguém sabia do que tinha sido. A confirmação só veio em janeiro, tarde demais — diz dona Dalva, de 50 anos que, como o marido, o Seu Zequinha, nasceu e nunca saiu da região.
Enquanto dona Dalva e outros tantos brasileiros contam os dias de suas tragédias, o Brasil marca em anos consecutivos seu pesadelo sanitário. A microcefalia da zika em 2015. As dores da chicungunha em 2016. E então, no início de 2017, o anúncio oficial do surto de febre amarela. O Brasil esqueceu a febre. A febre não esqueceu o Brasil.
Há três décadas a dengue não dá trégua. Somadas, dengue, zika e chicungunha, as doenças do onipresente Aedes aegypti, alcançaram a fronteira dos dois milhões de casos oficiais. Exatamente 1.987.678 milhão de casos até dezembro de 2016, mês da última divulgação do Ministério da Saúde sobre as doenças do Aedes.
Para as doenças, o calendário não para. E 2017 veio com o anúncio de outro mal de mosquito, a febre amarela silvestre, esta transmitida por Haemagogus e Sabethes, gêneros das florestas e suas bordas. Mas em janeiro, quando foi feito o anúncio público dos primeiros casos de febre amarela, em Ladainha, também em Minas, dona Dalva e sua família já tinham enterrado Seu Zequinha, mergulhados na incerteza do abismo sanitário brasileiro.
O panorama da doença pode ser visto em O Globo
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